sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Vivo-morto-vivo-Morto



Escola primária, 10 anos de idade em média. Hora do intervalo, também conhecida por, recreio (nota do autor: Nessa idade, as meninas têm mais maturidade que os meninos). As crianças correm de um lado para o outro. E gritam e brincam. Pega-Pega. Esconde-Esconde. (Ainda existe isso?) E fazem muito barulho. Até que chega alguém superior da categoria pedagógica, ou seja, um adulto, a Diretora, e fala aos berros para que ouçam.

- Por favor, podem fazer menos barulho?!

O silêncio surge. A correria cessa. Paz.
Porém, lá ao fundo, ouvem-se duas vozes ainda discutindo. A Diretora se aproxima das duas crianças.

- Oi, o que está acontecendo?

A Menina aponta para o Menino e diz:

- Ele quer!

O Menino cruza os braços e fica emburrado. A Diretora pergunta para ele:

- Você quer o quê?

O Menino continua em silêncio, braços cruzados e birrento. A Menina explica:

- Ele quer roubar de mim o que eu mereci!

A Diretora olha para os dois, já de saco cheio daquilo tudo, e pergunta para a Menina:

- O que você mereceu e ele quer tirar de você?

E a Menina, totalmente ofendida:

- Eu mereci estar aqui! E ele prometeu que ia me tirar daqui!

Então a Diretora olha para o Menino de braços cruzados, emburrado, e pergunta:

- Por que você prometeu tirar dela daqui?

O Menino continua emburrado e em silêncio. E a Diretora, sabendo que tem muito mais o que fazer do que ficar ali consertando brigas, questiona:

- Hein?

O Menino, emburrado, responde meio tímido, meio sem saber como explicar:

- É que ela ganhou.

E a Diretora, agora curiosa, pergunta:

- E ela ganhou o quê?

O Menino, totalmente sem graça, responde quase aos sussurros:

- Ela ganhou o jogo de Vivo-Morto.

A Diretora olha para o cabisbaixo Menino, e pergunta:

- Ela trapaceou?
- Não.
- Ela te enganou?
- Não.
- A vitória foi justa?
- Foi.
- Então menino, por que você está questionando a vitória dela?

E o Menino, aumentando a voz no alto de seu orgulho, responde:

- Porque eu acho que eu devia ter vencido! Por isso, estou aqui brigando por essa vitória!

A Diretora, para encerrar a discussão, olha no fundo dos olhos dele e diz:

- Bom, apenas entenda que ela ganhou, ok? E você perdeu. Então, fale mais baixo e tente ganhar dela da próxima vez, ok?

O Menino apenas concorda com a cabeça, mãos pra trás, cabisbaixo.



E só para constar, no jogo Vivo-Morto, o Menino perdeu justamente quando estava Morto e se levantou, tentando estar Vivo. Mas perdeu de novo.

*Esse link é totalmente ilustrativo. Mas vale o clique: DESESPERO!

sábado, 11 de outubro de 2014

A torcida (des)organizada da eleição 2014



Primeiramente, por uma questão ética, vou deixar bem clara uma informação: Sou PTista. Voto 13. Votei e votarei na Dilma.
 
Segundamente, vou deixar também bem clara uma opinião: Não me importo se você vai votar na Dilma ou no Aécio. Sério, de verdade, e isso deveria ser óbvio. Estamos em uma democracia e é para isso que ela serve, para a pluralidade de opiniões e ideologias partidárias. Porém, essa obviedade não é tão evidente assim.

Portanto, faço uma pergunta simples: O que diabos está acontecendo nessas eleições presidenciais de 2014?

Explico o motivo da minha simples pergunta. Certo dia, mais especificamente no dia 18 de agosto, ainda antes do primeiro turno, eu “saí do armário” e assumi meu voto na Dilma. Como? Apenas mudei minha foto de perfil do Facebook e coloquei uma que tinha no rodapé “Dilma 13”. Pensei que estava fazendo o equivalente ao que meu pai fez quando eu era criança, quando ele adesivou o carro com um “Lula 13”. Ele tornou pública a sua posição política, assim como eu. E eu, de forma ingênua, pensei que as reações a isso seriam nulas, inexistentes. Afinal, ninguém incendiou o carro do meu pai, ou arrebentou os vidros.  Porém, no meu caso, as reações foram imediatas. Recebi dezenas (sim, dezenas!) de mensagens inbox de pessoas que eu nem conheço pessoalmente, “questionando” meu voto (e acredite, tudo isso é ctrl V do meu inbox).

- Cara, eh sério que vc vai votar na Dilma?
- Vc vai votar na Dilma? Estou te excluindo.
- Se você vai votar no PT, você concorda com a corrupção. Canalha!
- Sério isso? E o mensalão?

Isso dentre dezenas de outras mensagens que recebi. Dependendo do meu humor e tempo livre, eu cheguei a responder e a “discutir” com essas pessoas. Desisti. Mas desisti, não por não ter argumentos, mas porque percebi que a enorme maioria desses que me criticaram é que não tinham argumentos. Ou melhor, tinham sim “argumentos”. E eu sempre repeti a mesma pergunta: “Tá, mas em quem você vai votar e qual o motivo?” (e novamente, ctrl V).

- Vou votar na Marina pq quero o PT fora do poder.
- Vou votar no Aécio, por que quero o governo corruPTo fora!
- Vou de Eduardo Jorge porque ele eh o mais coerente dos candidatos e não eh corrupto.
- E se ao invés de votar na Dilma, vc não com ela pra Cuba, junto com essa corja do PT?

Até aí, tudo bem. Afinal, apesar de serem pessoas presentes na minha lista de ‘amigos’ do Facebook, eram desconhecidos. E todos repetiam o mesmo argumento: Fora PT. Mas ignorei, porque né, não sou obrigado. Porém, o problema foi quando a coisa atingiu um nível pessoal, de amigos meus, realmente de convivência, me “criticarem”. E aí a coisa ficou séria e pessoal.

E novamente me sinto obrigado a repetir: Não me importo se você vai votar na Dilma ou no Aécio. Cada um tem os seus motivos para votar nela ou nele. Posso concordar ou discordar? Posso e devo, é meu direito e minha obrigação! Porém, enquanto cidadão brasileiro, concordando ou discordando, eu preciso ter, em primeiro lugar, uma coisa chamada Respeito.

E foi justamente pela falta dessa palavra que surgiu esse meu desabafo na forma de post.

Sim, eu me orgulho de nunca, NUNCA ter menosprezado quem quer que tenha tido uma opinião política diferente e/ou contrária à minha. Nunca. E aí repito novamente a pergunta: O que diabos está acontecendo nessas eleições presidenciais de 2014?

Porque nessas eleições, amigos meus, ao invés de discutirem política comigo como forma de crescimento democrático e de opiniões, apenas me “criticaram”. E deixei a palavra entre aspas duas vezes nesse texto, porque para eles “crítica” significa “ataque” e “menosprezo”.

Tendo como exemplo, primeiramente fui chamado de “burro” porque sou PTista. Ok, primeira ofensa gratuita, já que nunca menosprezei quem é oposição. Não contente e tentando justificar o injustificável, essa mesma pessoa me acusou de sofrer de “cegueira seletiva” por votar no PT. Portanto, 43.267.668 de pessoas nesse país também são burros e sofrem de cegueira seletiva, como eu. O que é ótimo! Já que esses cegos seletivos e burros são muito mais dos que os 34.897.211 que votaram no candidato da oposição.

A ironia das ironias é: Meses antes, com essa mesma pessoa eu tive a melhor discussão política. Argumentamos, concordamos, discordamos, aprendemos e nos respeitamos. E de repente...

Mas finalizando todo esse raciocínio, o que eu queria entender é algo simples: Desde quando a eleição se tornou futebol?

Porque foi isso que a eleição se tornou. Você torce/vota para o adversário? Morra, vá pra Cuba, e leve a corja junto.


Porém, um detalhe: Eu nunca vi gente que vai votar na Dilma sendo agressivo assim. Já os que vão votar no Aécio. Enfim... Miami está logo ali.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

8 ou 80


Porque nessa nossa sociedade “moderna” não há espaço racional para meio termo.

Sabe, ou você é hetero, ou é gay. Bissexuais são indecisos. E se for lésbica, é por falta de um pênis de qualidade que te faça mudar de “opção”.

Ou você é petista ou é contra o petismo. Porque o governo é apenas situação ou oposição. Todos corruptos. Não ouse votar pra presidência número 25 e pra governo número 77. Cadê a coerência?

Ou você é feminista ou é machista. Não há pró-feminismo ou pró-idiotice. Afinal, somos mulheres e homens que vivem em uma sociedade igualitária (no papel).

Ou você é racista, ou não é. Chamar alguém de “Macaco” durante um jogo de futebol, com o óbvio intuito de denegrir a pessoa pela sua cor de pele, é coisa do calor do jogo, não racismo. Afinal, você tem amigos negros que nem se importam com o apelido “Negão” que têm.

Ou você curte funk, ou curte sertanejo. Porque, esses dois estilos musicais que são vendidos como “cultura brasileira”, são uma merda. Sendo que você sequer sabe o que “cultura” realmente significa no dicionário.

Se você é homem e transa com 7 mulheres em 7 dias, você é o cara. Se você é mulher e transa com 7 homens em 7 dias, é uma vadia. Faz todo sentido, claro.

Ou você é ateu, ou é um religioso fervoroso. Sempre vai tentar provar que Deus existe, ou não (ou está morto, Nietzsche). Sem considerar que pode, ou não, existir um Deus dentro da sua religião, ou fora dela.


Sem contar que você, homem ou mulher, mulher ou homem, cis ou transgênero, você é você. E você sendo você, tem apenas a obrigação de ser feliz. E foda-se o que a sociedade pensa disso. Mesmo essa porra de sociedade “moderna” ainda pensando 8 ou 80. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Apenas olhe para frente



Dentro do ônibus, eu olhei pra você.
Com medo de você notar.
E com a mesma esperança. Note-me!
Olhei com cuidado, pra não te constranger.
E olhei com atenção, esperando você notar.

Dentro daquele ônibus, olhei de novo pra você.
E você olhava para alguém, pelo celular.
Continuei, até você olhar pra frente, pra mim.
Desviei o olhar.

Você voltou a olhar para alguém pelo celular.
E eu, bom, eu voltei a te olhar.
Continuei olhando a sua beleza, o seu olhar.
Olhei seus cabelos, seu rosto e seu sorriso.
E você sorrindo, olhando para o celular.

Continuei olhando para você, sabendo o seu medo.
De ter um homem te olhando, quando não mais, em um ônibus.
Continuei te olhando, e você, olhando para o celular.
Quando você olhou para frente, para mim, desviei o olhar.

Sorri olhando para o lado, para fora da janela.
Mas na verdade, eu olhava para você, pelo reflexo.
E você olhando, diretamente, para mim. Sorri.
Mas não te olhei, não te vi. Para não te constranger.

Meu ponto chegou. Apertei o botão.
Olhei pra você já cheio de saudades.
Era a última olhada minha para você.
E você olhando para o celular, sorrindo.
Quando me levantei pra descer, você olhou pra mim.
Eu sorri. E você também. O ônibus parou. E eu desci.
Desci e vi você olhando e sorrindo pra mim pela última vez.
E eu te enxerguei, pela primeira vez.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Desabafo de um Homem para todas as Mulheres


Pois esse meu desabafo é para você, Mulher que por um acaso já cruzou meu caminho. Quero lhe pedir desculpas.

Peço-lhe desculpas pelo medo que eu fiz você sentir. Acredite, não foi minha intenção. Mas eu notei quando você me viu andando na rua à noite, ao seu encontro, e apressou o seu passo ou atravessou a rua. Eu vi e não só não te condeno, como eu te entendo. Me desculpe.

Peço desculpas por todas as vezes em que eu estive em um ônibus lotado e, tentando me virar de lado, aparentei estar me aproveitando de você. Não, eu não estava. Pelo contrário, eu me senti mais constrangido do que você. Porque, infelizmente, você já viveu situações piores dentro de um ônibus. E eu, não.

Eu, enquanto Homem, peço desculpas por todos os assovios e “elogios” que você ouve a cada dia, a cada passo, a cada esquina na rua. Porque assédio sexual não precisa ser físico. Na maioria das vezes, é dito.

Peço desculpas também pelos estupros que acontecem diariamente por aí. E peço mais desculpas ainda quando leio que “Estava andando de minissaia, é porque pediu.” ou “Com certeza provocou, por isso mereceu.”. Por isso peço desculpas pela hipocrisia que lhes é imposta de que – cadê a lógica? – a vítima é a culpada. Se a vítima é mulher, ela é sempre a culpada.

Só quero pedir desculpas pelo mundo machista em que vivemos. Em que a Mulher anda com medo pelas ruas, é assediada, abusada, humilhada, maltratada e... Culpada, por tudo o que os homens lhes fazem e falam.

Peço perdão, porque o Homem que é Homem, sabe como deve tratar as Mulheres. Já os homens infames, acham que a Mulher é seu objeto. Quando deveriam se lembrar que é da Mulher que veio o H(h)omem.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Mi! Obrigado.



Agradeço.

Você não apenas mudou a minha vida. Você a transformou.
Você não apenas veio e se foi. Você me transformou em alguém que acredita.
Acredita não apenas no amor, mas que acredita em si mesmo.

Você me mudou.

Antes de você eu era um alguém qualquer.
Agora sou alguém com alma. Com amor. Com algo a perder.
Acho que entendo que você entrou na minha vida para sair da forma que saiu.

De repente.

Com marcas para sempre.
E de repente eu entendi que sou muito mais do que jamais fui.

Agradeço.

Hoje eu vou além, eu arrisco, eu jogo os dados.
Hoje eu vivo. E não apenas existo.
Você abriu meus olhos para a vida. Para você. Para mim.

Você me ensinou que o amor é algo para se correr atrás.
Como eu corri atrás de você. Não deu certo, tudo bem...

Passou.

Mas com o passado veio uma visão de futuro.
Que apostar é sempre bom, e fodam-se as estatísticas.
E estou correndo atrás do meu futuro. Do jeito que eu quero que ele aconteça.
Se vai dar certo, só esse futuro dirá.

Mas por eu estar correndo atrás, agradeço a você.
Que me ensinou que a vida é mais do que viver.
A vida é surpreender. Como você me surpreendeu quando entrou na minha.
E como eu te surpreendi quando me propus a entrar na sua.
Não deu certo, mas tudo bem...

Hoje é o seu aniversário e eu só queria te prestar essa homenagem.
Você foi a mulher mais importante da minha vida. (Deixe minha mãe e irmã de lado)
E a mulher por quem eu estive disposto a largar a minha vida aqui.

Você foi quem eu sempre quis. E quero que seja feliz.
Seja, por favor, feliz. Porque é o que eu te desejo.

Michelle, você é maravilhosa. Saiba sempre disso.
Nunca se esqueça de que você mudou a vida de um homem.
Eu.

E sempre se lembre de que um homem quis largar,
A vida que tinha, para estar com você pra sempre.

Michelle, parabéns e feliz aniversário.
Sim, te amo por tudo!
E agradeço, do fundo do meu coração, por você ter entrado em minha vida.
Porque sem você, hoje eu seria,

Nada.

Obrigado.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Situações





Ele e Ela estão ali sentados na mesa de jantar dele, um de frente para o outro, bebericando a segunda garrafa de vinho. Levemente embriagados, os dois sorriem enquanto conversam relaxados. Ele tem 32 anos, Ela tem 27. Ele não quer entrar no assunto que Ela quer. Ela quer apenas que Ele tome a iniciativa e comece o papo. Enquanto isso...

O Outro e Ela estão ali sentados na mesa da lanchonete, um ao lado do outro, bebendo chopp. Totalmente à vontade, os dois sorriem enquanto conversam e fazem piadas um com o outro. O Outro tem apenas 20 anos e Ela tem 27. Ela não quer entrar no assunto que o Outro quer. O Outro quer que ela tome a iniciativa, porque essa espera faz parte da diversão. Enquanto isso...

Ele decidiu. “Olha, pra mim é o seguinte. Eu gosto muito de você e acho que a gente se deu muito bem juntos. Sabe, nos divertimos na cama e gosto de conversar com você.” Porém, Ela pensou consigo mesma que a diversão na cama nem foi lá aquelas coisas e a conversa nem é assim tão interessante, afinal, ele detesta filmes fantásticos e odeia Piratas do Caribe (ele gosta muito de Jackass). Sem saber direito o que responder, Ela apenas deu outro gole no vinho. E enquanto isso...

O Outro está bebendo um generoso gole de chopp. Ela sorri. E o Outro também. Então ele apenas diz “Sabe, adoro a sua foto de perfil no Facebook. Porque nessa foto você é você sem ser falsa. É espontânea e sexy.” Ela sorri pela sinceridade. E o Outro, apontando para a caneca de chopp “Vai, vira, porque vou pedir outros dois.”. Os dois viram o chopp.

Ele está olhando para Ela enquanto espera uma resposta. Ela termina de beber o vinho e olha para Ele, em silêncio. Ele, com a coragem que o álcool dá, emenda “E o que me diz de nós dois? Eu acho que somos um belo casal.” E Ela, também com a coragem que o álcool traz “Também acho. Eu sou bonita e você também é.” Ele sorri apenas por não saber outra forma de reagir. Ela sorri, por saber que ganhou o jogo.

Dois novos chopps na mesa. Ela e o Outro brindam. Ela ri. Ele complementa “É disso que eu to falando. Essa sua risada é espontânea. É você. E eu adoro isso.” Ela ruboriza e bebe um gole. Esse Outro sorri, bebe um gole e “Nunca mude!”

Ele enche o copo com mais vinho. Ela apenas observa. Ele pega a taça e aponta para que ela faça o mesmo. Ela faz. Eles brindam e Ele diz “A nós dois. Porque você é muito mais bonita do que a minha ex.” Ela apenas bebe, sabendo que Ele está se afundando nas próprias memórias.

“Eu acho que não vou mudar.” Ela diz, enquanto bebe outro gole de chopp. E o Outro sorri para ela, porque sabe que não é mais o Outro, quando diz “Mesmo que você mude, você sempre será você.”

Ela pergunta para Ele “Por que está falando da sua ex agora?” E Ele, entendendo a delicada situação, tenta consertar “Porque eu só queria te mostrar o quanto você é melhor do que ela.”. E Ela, num xeque-mate, finaliza “Se você achasse isso, sua ex nem teria entrado nesse assunto. Afinal, eu falei do meu ex? Não.”. Ele, por fim, enche novamente as taças de vinho. Resignado.

Ela termina o copo de chopp e dá um pequeno arrotinho, interno, sutil. O Outro quase se afoga enquanto bebe e ri da situação. Ele então diz “Eu sei que você tem mais idade do que eu, e eu sei que idade é apenas número, caso contrário, você não estaria aqui comigo.” E Ela, totalmente entregue nesse xeque-mate, apenas responde “É verdade...”.

Ela chama o táxi para ir embora. Ele, bebendo o resto do vinho da taça, apenas a observa. O interfone toca, Ele atende “Ok, ela já está descendo.” Ele abre a porta e ela se aproxima para o tchau. Um beijo carinhoso na bochecha. Ele está frustrado, ela também. E Ela vai embora.

Dentro do táxi, Ela pega o celular e telefona. Instantes depois, alguém atende e Ela pergunta “Oi, quer tomar um chopp em uma lanchonete?”

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Mas mais, mas...?


O Mais matou o Mas,
Porque, porém, ele era, apesar de tudo,
Menos.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Esse mundo


Esse mundo estranho. Paradoxal. Sazonal. Infame.
Um mundo que tem tanta coisa ruim. E que tem tantas outras coisas lindas.
Um mundo que teve Jesus Cristo e o Holocausto.
Tem um pôr do sol a cada dia e guerras, a cada dia.
Lágrimas que escorrem dos olhos quando descobrem assassinatos e mortes estúpidas causadas por pessoas embriagadas ao volante. E também, lágrimas que escorrem dos olhos que presenciam o nascimento de novos pequenos projetinhos de gente, lindos projetinhos, com carinha de joelho.
Mundo esse que viu tantas vezes a ganância sobrepujar pessoas, povos, culturas. E que também viu a arte sobrepujar essa mesma ganância.
Da infâmia dos déspotas, da benevolência dos anônimos.
Da pessoa que odeia outra só por ter uma cor de pele ou orientação sexual diferente da sua. E da pessoa que paga um almoço para um pobre desconhecido que apenas lhe pediu uma moedinha.
Um mundo em que as diferenças não entendem que são todas e todos iguais. Humanos.
Da porta do elevador mantida aberta para um outro alguém entrar. Do desejar bom dia sem esperar resposta.
Ou seja, um mundo cheio de pessoas estranhas. Infames. Medíocres.
Mas um mundo que mantém uma esperança para os diferentes, os bons, os que sonham ao pôr do sol e que desejam apenas, sorrir para sempre. Tipo, você.

terça-feira, 19 de março de 2013

O final é o começo



Ali está a jovem, bela e balzaquiana Cidinha, sentada em um café. Dentre goles em seu cappuccino, ela lê o livro de contos que um amigo lhe emprestara. “Leitura de banheiro”, segundo ele. “Por quê?”. “Oras, porque você senta, abre em uma página, lê e fecha. Rapidinho assim.” Apesar de não estar no banheiro, ela até que estava se interessando pela leitura. Quem também estava se interessando, não pela leitura, mas por ela, é o jovem rapaz sentado logo na mesa ao lado.
- Que voz, não?
- Oi? - falou Cidinha, um pouco incomodada com a intromissão “bem na hora que o Rubens ia convidar a Jussara para tomar um chopp!”
- Que voz tem esse autor, tão única, tão poética.
- Nunca vi nenhuma entrevista com ele. - e voltou a olhar para o livro, certa que passara o recado para o rapaz. Ou seja, puxe mais papo porque você é bonitinho.
- Qual conto você está lendo?
Cidinha voltou algumas páginas.
- “O final é o começo”, é o nome.
- O Rubens chamou a Jussara para um chopp, ela aceitou, eles dormiram juntos e depois de duas semanas tudo acabou.
- Mas... - e ela interrompeu ali, não querendo ofender o jovem rapaz. - Você estragou a surpresa do final!
- Eu só...
- Sério, estou ofendida. De que adianta ler algo já sabendo o final... Ai, como é o nome?
- Rubens.
- Spoiler! Odeio spoilers. Você me deve um pedido de desculpas...
- Posso me explicar?
- Depois das desculpas, pode.
- Desculpe. Então, eu só disse o final pra você pensar se vale a pena chegar até ele.
- Quê?!
- Oras, se mesmo sabendo o final você ainda quer chegar até ele, é porque vale a pena. Vale?
Cidinha estava atônita, olhando nos olhos e boca daquele jovem e bonitinho rapaz.
- Não sei, digo... Acho que vale.
- Bom, posso te pagar um chopp?
- Pode, claro.
- Ótimo, e me diga... Qual seu nome?
- Aparecida. E o seu?
- Rubens! O seu nome não é Jussara?
- Não, é Aparecida.
- É, acho que o autor errou dessa vez.
- Como?
- Não devia ser Aparecida, tinha que ser Jussara, como no conto.
- Mas isso não é um conto.
- Se não é, posso te chamar de Jussara?
- Pode, vai... Só porque você é bonitinho.
Rubens chamou o garçom e pediu dois chopps. Dez chopps depois, ele e Cidinha-Jussara foram para a casa dele. Dormiram juntos. E duas semanas depois, tudo havia acabado.

terça-feira, 12 de março de 2013

Essas idas e vindas



Eu sempre imagino as histórias que determinados lugares nos contariam, caso pudessem e quisessem nos falar. Assentos de táxis. Assentos de ônibus. Salas de espera de hospitais. Salas de espera de maternidades. Cemitérios. Celulares! Porém, o local com as mais íntimas histórias escondidas é o aeroporto.
Porque naquele saguão daquele aeroporto está um senhor sentado e bebendo, em uma mesa, um copo de chopp. Ele está bebendo com a vontade que um senhor de 55 anos beberia. Ele bebe por um motivo muito específico: nervosismo. Muitos anos atrás, naquele mesmo local lá se foi sua pequena filha, depois de uma briga feia.
E agora ela está voltando, trazendo nos braços um pequeno filho.

Na mesa ao lado um jovem garoto conversa com uma jovem garota. Um de frente para o outro, mas com as mãos dadas e esticadas sobre a mesa. Do lado dele, a promessa “Você está indo embora, mas me espere, porque irei atrás de você!” e do outro lado, ela responde com lágrimas nos olhos o que seu coração queria dizer “Venha, porque estarei te esperando.”.

Em outra mesa, uma mulher que não tem mais do que 40 anos olha para o nada, assertiva. Até que seu celular toca. Ela atende, sorri e se levanta sem nunca nos dizer o que estava acontecendo.

Na ala de desembarque, um rapaz está esperando pacientemente. Um funcionário do aeroporto se aproxima dele e diz “Oi, teu nome é...” “Sim, sou eu.” “Isso é pra você.”. O rapaz sorri, agradece e pega uma mala. Sem sequer sair do lugar, ele a abre. É a vodka francesa que ele esperou por tanto tempo. Natasha. Ele fecha a mala e vai embora, sonhando com um novo e melhor amanhã.

Em outra ala de desembarque, outro rapaz está esperando com uma placa levantada que diz o nome de uma garota, circundada por um coração. E ele continuou ali esperando, até entender que a garota nunca viria.

Na sala de espera para entrar no avião, um homem fala com outro homem. Caso corriqueiro, claro, exceto pelo fato dos dois homens serem exatamente iguais. Irmãos gêmeos, um está indo para um país do hemisfério norte e o outro, para um país oriental. E pela primeira vez em suas vidas, eles não estarão juntos. Ao seu momento, um prometeu ao outro cuidar-se, manter a calma e criar uma nova vida.

Continuando as histórias que um aeroporto contaria se pudesse e quisesse contar, ali estão um homem e uma mulher. Cada um nos seus 30 anos bem vividos. Ela vai embarcar e ele vai ficar. Ela vai para a Itália e ele ficará por aqui. Ela irá em busca de novos sonhos e ele ficará, por aqui, sonhando por ela. Ela foi. Ele ficou, olhando para a Lua.

E no portão de entrada um jovem rapaz beija, efusivamente e dentre lágrimas, uma jovem garota. Eles se amam mas ela está indo embora para outro país. E como fizeram antes, na mesa, ele prometeu ir atrás dela. Ela prometeu que iria esperar por ele. E como terminou essa história, só os dois sabem.

E são essas poucas dentre muitas histórias que um aeroporto poderia contar. Se pudesse. E se quisesse.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Heleninha, virgem Heleninha




E aí veio a notícia. Heleninha, logo a casta Heleninha, estava grávida.

- Só pode ser do Espírito Santo, tipo Maria! - bradou a garota para as três amigas, durante o jantar semanal. - Nem namorado tenho. - completou. Vânia olhou para ela com desdém e comentou com Isabela, quase aos cochichos. - Se mulher só engravidasse com namorado, o mundo teria 8 pessoas.

As duas riram entre si. Heleninha, a imaculada Heleninha, ignorou as risadas, o motivo delas e desatou-se a chorar.

- E agora? Como vou contar aos meus pais? E meu Deus, quem é o pai?

Silêncio. As três amigas aguardavam as próximas palavras de Heleninha, que não vieram. Virgínia resolveu que era hora de intervir.

- Heleninha, com quem você andou dormindo?

- Dormindo? - protestou Vânia. - Dormindo!? - protestou novamente. - Com quem ela andou transando! Essa deveria ser a pergunta!

O silêncio agora era pontuado pelos soluços da virgem Heleninha.

- Com ninguém... Sou pura.

As três amigas começaram a rir. Pararam assim que perceberam que Heleninha, aparentemente, falava sério.

- Amiga, virgem não engravida. - atestou Vânia, demonstrando a você, leitor, ser a mais sexualmente ativa do grupo.

- Mas e Maria? - perguntou Isabela, também demonstrando a você, leitor, ser a mais religiosa do grupo.

- Maria está no céu. - interveio Virgínia, demonstrando não fazer ideia do que a palavra “contexto” significa.

Heleninha apenas soluçava dentre lágrimas. Vânia, em sua esperteza, pegou o celular de Heleninha, viu o nome do pai da futura criança e colocou o aparelho no ouvido.

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Paulo Coelho “igual o escritor”, como costumava repetir, queria apenas que o expediente da semana terminasse. Sexta-feira! O problema é que ainda era terça-feira. Conscientemente ignorando essa informação, ele apenas sonhava com um número: 18:00. A alforria. A hora de ir embora. A liberdade provisória que teria até o momento em que chegasse em casa e encontrasse a esposa, “uma vaca ciumenta, manipuladora e possessiva” como também costumava repetir. Aliás, vale citar que Paulo Coelho sempre repetia verdades universais como se fossem suas “igual o escritor”, como costumava... repetir.

Em todo caso, Paulo estava no trabalho quando seu telefone celular tocou. Era um número desconhecido.

- Alô?

- Paulo?

- É ele. Quem está falando?

- Paulo, é o seguinte. Você não me conhece, meu nome é Vânia e eu tenho algo muito importante pra te dizer. Você está em pé? Sente.

- Mas eu estou sentado.

- Então deite.

- …

- É o seguinte. Você vai ser pai.

É importante seguir o raciocínio que Paulo teve nesse momento. Seu cérebro estava hiperativo pelo excessivo consumo de café feito durante todo o interminável expediente. Segue o que se passou em sua mente naquele instante “Po, eu falei pra Julia se cuidar, tomar o remédio sempre. Não posso arcar com um bebê agora. Vou falar pra ela abortar. Isso! Não! Abortar é feio, Deus não gosta. Que merda, vou ter que me matar de HE (Hora Extra) pra poder pagar tudo que um bebê precisa. Sem falar que os pais dela, que já me odeiam, vão achar que fiz de propósito e então...”

- Paulo? - a voz de Vânia no telefone interrompeu tudo.

- Sim, diga.

- A Heleninha está grávida.

- Heleninha?

- Sim, a Heleninha.

- Mas eu não conheço nenhuma Heleninha. Sou casado.

- Você diz que é casado? E a Heleninha diz que é virgem, portanto...

- Mas é sério. Eu não conheço nenhuma Heleninha...

Nesse instante, Vânia olhou para o celular e notou a merda que fez.

- Paulo, desculpa, liguei para a pessoa errada.

- Já que está tudo errado, hoje pode ser sexta-feira?

- Pode!

Vânia desligou. Paulo mandou tudo à merda, se levantou e foi embora louco pra abraçar e fazer amor (coisa que só casados fazem e, quando fazem, é só no aniversário de casamento). Quando ele chegou em casa agarrando taradamente Julia, ela estranhou. Eles treparam. Ela, sendo uma vaca ciumenta e possessiva perguntou “quem mais ele estava comendo, já que ele nunca fizera aquilo e, já que não fizera, obviamente tinha aprendido com alguma outrazinha qualquer” pediu o divórcio. Totalmente arrasado, no dia seguinte ele foi demitido, por ter mandado tudo (leia-se, o chefe) à merda.

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Vânia estava segurando o telefone celular na mão. Com um leve remorso, olhou para a chorosa Heleninha.

- Amiga.

- Quê? - e prosseguiu a chorar.

- Quem é Paulo Coelho?

- Um escritor. - Heleninha, Isabela e Virgínia responderam juntas.

- Ok. Quem é o Paulo Coelho que está na sua agenda do celular?

- Ah, é meu chefe.

- Ok. - limitou-se a dizer Vânia, torcendo para que Paulo tivesse uma posição corporativa tão alta que jamais soubesse da existência de Heleninha. Claro, Vânia jamais saberia que Paulo seria demitido no dia seguinte.

- Amiga, sério. Quem pode ser o pai do seu filho? - perguntou Isabela.

- Ou filha, né! A gente nem sabe ainda. - questionou a feminista Virgínia.

- O que seja. - finalizou a polêmica, Vânia, completando. - Heleninha, para quem você... Deu... Nas últimas semanas?

- Pra ninguém. Sou pura. Sou virgem. - repetiu Heleninha, sob olhares reprovadores das três amigas que pensavam, coincidentemente, a mesma coisa, entre si “É claro que é.”.

************************************************

O nome do possível pai continuou em pauta dentre todas as três amigas por muito tempo. Mas é lógico que nenhuma delas falou um A para Heleninha. Afinal... Ela era casta e imaculada.
O tempo passou.

Até que veio a notícia. Heleninha, logo a casta Heleninha, não estava grávida. Já era outro jantar semanal.

- Espera, mas como não? - questionou Vânia.

- Foi erro do laboratório. - replicou Heleninha.

Todas comemoraram a não vinda de um outro rebento para o mundo. Todas, exceto Vânia, que pegou o próprio celular e mandou uma mensagem que dizia “Paulo, você está deitado? Se levante. Você não será pai!”

Mal sabia Vânia que Paulo já tinha se divorciado, estava solto no mundo, feliz e (naquele momento, bêbado) que, no momento em que recebeu a mensagem ligou para ela. O que ele disse?

- Ainda bem que não serei pai. Mas o que você acha de nós brincarmos de fábrica de bebês, agora?

Vânia disse um singelo “Sim.” para ele, se despediu das amigas e foi não só demonstrar a você, leitor, ser a mais sexualmente ativa do grupo, como foi provar.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O último primeiro encontro de um homem

1
Nem sei quem sou. Nem sei se serei homem ou não. Sou apenas um espermatozóide nadando num local que eu nunca estive antes, buscando algo que eu nunca vi antes, seguindo simplesmente os meus instintos genéticos. Ou seja, estou nadando em frente e rompendo todas e quaisquer barreiras que eu veja. Mas espere. O que é aquela coisa ali? É algo muito maior do que eu. Na dúvida, pergunto para outro espermatozóide ao meu lado:
- O que é aquilo?
E ele responde:
- Também não sei.
E eu, cada vez mais próximo, pergunto novamente:
- Sério, o que eu faço?
E ele responde:
- Não sei. Vá em frente! Porque eu estou indo!
E eu rapidamente vou. Bato e bato naquela estranha porta, com medo que ela se abra antes para o meu novo amigo ou para os outros estranhos que também estão batendo nela. Mas ela sutilmente se abre para mim. E eu entro. Só eu entro, até ela se fechar novamente.

2
Ok, ainda não sei quem eu sou. Só sei que estou nadando em um local muito quentinho e aconchegante. Estou sendo alimentado e aquecido em um local estranho, por uma pessoa estranha, através de uma estranha sonda acoplada em minha barriga. Mas tenho uma certeza pelo que eu consigo ver, sou um homem. Só não sei o que estou fazendo aqui. Tudo o que sei é que tenho algo que vou chamar de, sei lá, pé. Isso, tenho dois pés. E se eu quiser, posso movimentar esses... pés... com força. Então, vou tentar fazer algum movimento mais forte pra ver se acontece alguma coisa. E na falta de algum nome, vou chamar esse movimento de... chute! Isso. Vou dar um chute com os meus pés e ver o que acontece.

3
Esse lugar quentinho deixou de ser aconchegante. Está apertado. Continua quentinho, mas está muito desconfortável. Eu tenho que sair daqui. Posso? Poxa, não posso nem chutar mais. Esse lugar está apertado. Quero sair. Como posso fazer isso? Será que se eu tentar me esticar, posso sair?

4
Puta merda! Por que eu resolvi sair? Agora estou com frio, assustado e ainda me deram um tapa na bunda. Vou berrar o máximo que puder. Ao invés de me entenderem, estão dizendo que sou bonitinho, lindo e fofinho. Agora estão passando a mão em minha cabeça e, o mais estranho, é que a pessoa que passa a mão na minha cabeça é justamente quem me mantinha naquele lugar quentinho e aconchegante. Estou tentando berrar mais alto ainda, na esperança de voltar praquele lugar. Que saudades sinto.

5
Bom, me acostumei com essa nova moradia. Lugar chato esse. Todo dia, depois de eu andar por aí ela, que agora chamo de “mãe”, me pega e tira toda a minha roupa e me coloca num lugar com uma água quente que me lembra justamente aquele lugar quentinho e aconchegante que eu vivi antes. Pena que dura muito menos. Então ela, a minha mãe, me enxuga e coloca em mim aquela roupa que eu tanto odeio. Quisera eu voltar praquele lugar.

6
Estou num lugar que não entendo. Estou ao lado de muitas pessoas que, como eu, também se arrependem de terem saído daquele lugar quentinho. Lá na frente tem uma moça muito mais velha falando algo sobre “tabuada”. E essa moça pede que todos nós decoremos o que é tabuada de 4 por 7, porque “vai cair na prova”. E já que ela pediu tão gentilmente , eu decorei. Mas uma amiga minha não conseguiu decorar. E eu ajudei ela.

7
Estou nervoso. Mas muito nervoso. Na noite de hoje irei numa festa das pessoas da minha escola e lá estará aquela minha amiga que eu ajudei a decorar a tabuada. E não sei porque estou nervoso. Mas vou na festa.

8
Estou na festa das pessoas da minha sala. E ao meu lado estão todos os meus amigos. Lá longe, do outro lado do salão de festas, está aquela minha amiga que eu ajudei na tabuada. Eu nem deveria me importar com isso, mas não sei porque, estou me importando. Devo ou não ir lá falar com ela?

9
Não fui, ok? Fiquei a festa inteira ali, sentado no meu canto, bebendo coca-cola. Enchi a cara de coca-cola e fui embora. Mas no dia seguinte uma amiga dela falou para mim, nessas palavras “Sabe, ela ficou a noite toda da festa de ontem esperando você ir falar com ela.”. E eu nem acreditei, claro. Tudo o que eu pensei e falei para a amiga dela foi “Sério? Vou falar com ela hoje!”

10
E eu fui, ok? Cheguei perto dela e falei “Oi, vamos no cinema hoje?” no que ela respondeu “Ver o quê?” e eu, sem pensar, falei no primeiro filme idiota que eu sabia que estava em cartaz e, por sorte minha, ela disse “Sério? Estou louca para ver esse filme!” e combinamos de ir ao cinema.

11
No cinema, o filme idiota começou. E eu nem estava prestando atenção nele, é claro, porque eu queria era a atenção dela. Até que, de repente, o filme me deu de presente uma cena mais assustadora. E ela, deu-me de presente um abraço. Nos olhamos e nos beijamos. E esse filme de terror proporcionou para mim o primeiro peito que eu peguei maliciosamente com as minhas mãos. E foi por baixo da blusa. E claro que nenhum amigo meu jamais soube disso. Aham..................

12
“Ei, quer ver algum filme aqui em casa?” foi essa a mensagem que eu recebi, anos depois e enviada por uma conhecida minha, no meu celular. E respondi, inocentemente “Claro! Qual filme?” Depois de algumas horas de silêncio, ignorei a minha própria pergunta e me dirigi, inocentemente, até a casa dela. Ela me convidou para entrar e sim, colocou algum filme no aparelho de DVD. Depois de 5 minutos de filme, começamos a nos beijar de forma mais... intensa. E sim, nesse dia nós dois perdemos nossa pureza.

13
“Meu amor, preciso te falar algo.” foi o que eu ouvi da minha namorada quando voltei para casa. “O quê?” perguntei, sem nem pensar. “Eu acho que nós estamos grávidos...” ela disse, com medo que eu pudesse reagir de forma abrupta. “Sério? Isso é ótimo! Digo, temos que planejar muitas coisas de agora para frente, mas é ótimo isso!” eu falei, de forma sincera e cheio de amor. E sim, era sério...

14
Ele nem sabe quem é. Não sabe se será homem ou mulher. Aquilo é apenas um espermatozóide nadando num local que nunca esteve antes, buscando algo que nunca viu antes, seguindo simplesmente os seus instintos genéticos. E foi em frente...

15
Ali está ela. Eu nem acredito que sou pai, que virei homem, que cresci.

16
E aqui está o meu último primeiro encontro, o qual eu faço com muito orgulho. É o momento em que ela, esse pequeno ser feminino, está apertando meu dedo indicador. E dessa pequena princesa eu mal posso esperar que fale apenas uma palavra para me completar: Papai.

sábado, 19 de maio de 2012

Iguais diferenças

Estamos no ano de 1954.

O que somos nós, a raça humana? Sim, aparentemente somos a espécie mais desenvolvida dentre todas as outras. E por isso a lei dos mais adaptados, que Darwin explicou tão bem, cabe a nós. Se nós somos os mais adaptados, obviamente e, naturalmente, devemos subjugar todas as outras formas de vida. Se isso é certo ou errado, não vou entrar nesse ponto agora (apesar de ter opiniões muito contundentes a respeito disso), mas o que interessa nesse meu devaneio aqui, é a nossa superioridade, não numérica, mas racional. Pois bem, a nossa honorável espécie branca humana é superiora a todas as outras espécies vivas desse planeta. Nós pensamos, nós temos um raciocínio tão avançado a ponto de eu mesmo estar aqui escrevendo isso, para que vocês que estão aí, possam ler. E isso é sim, algo superior.

E graças às pesquisas feitas pelos nossos atuais antropólogos, nós podemos subjugar os nossos inferiores. Segundo Darwin e segundo todos os evolucionistas, nós viemos dos macacos. Pois sim, um dia os macacos se desenvolveram a ponto de descerem de suas confortáveis árvores e resolveram caminhar no chão. Caminharam e se desenvolveram muito, e por muitos milhares de anos, a ponto de chegarem onde estamos agora. E é claro, nem é preciso ser um pesquisador antropólogo para concluir que, após milhares de anos, a sequência de adaptação foi simplesmente a seguinte: macacos nas árvores, macacos andando, humanóides negros, humanóides morenos, homens superiores brancos.

E é por isso que estou aqui escrevendo isso. Porque a adaptação fez de nós, homens brancos, seres superiores a quaisquer outra espécie no mundo. Seja essa espécie uma galinha, um lobo ou um homem negro. E é por esse motivo que eu defendo a separação racial nos ônibus, por exemplo. Eu não quero e nem preciso sentar ao lado de um homem inferior negro. Esses homens e mulheres que sentem, no fundo do ônibus, sorrindo de alegria. Eles que sentem lá, enquanto eu sento aqui na frente, sorrindo também.

Estamos agora no ano de 2011.


Estou aqui sentado ao lado de um grande amigo meu, pretinho como carvão (opa, segundo a patética cartilha do politicamente correto e sob riscos de ser processado, tenho que chamá-lo de outra forma, mesmo que ele não se importe como eu o chamo), ao lado do meu grande amigo afro-descendente, esperando o nosso ponto para descer, que ainda está longe. Enquanto esperamos, entra no ônibus um casal de homens, com a nossa mesma idade. Mas, um casal de homens.

Eu e o meu negro amigo, sequer nos importamos. Afinal, são apenas outras duas pessoas como nós o somos. Mas eles entram e, caminhando de mãos dadas, vão andando e sentam lá, no final do ônibus, sorrindo. Continuo conversando com o meu amigo frivolidades da vida, subterfúgios aleatórios, coisas banais que todo amigo conversa com o outro no dia a dia, até que nós dois escutamos uma voz alta e mais imperativa falando “Que sem vergonhice é essa?”. Era um outro homem, com a mesma idade que a nossa. Esse homem falava isso, enquanto apontava para o casal que acabara de sentar sorrindo lá no fundo do ônibus.

E nesse momento eu tive a óbvia epifania e conclusão que qualquer outra pessoa racional teria tido. Em uma sociedade banal, o que incomoda não é a raça diferente ou orientação sexual diferenciada. O que incomoda é a felicidade alheia.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O finito infinito

Da vida nada levamos. Exceto, talvez, a experiência. Mas isso depende da crença (ou da falta dela) de cada um. Pensar que somos feitos apenas, ou da poeira das estrelas que já partiram, ou dos restos do que um dia foi a explosão inicial que deu origem a tudo, me conforta. E, ao mesmo tempo, me inquieta.

“A ignorância é uma bênção.” já disse algum sábio filósofo cujo nome desconheço. Porém, apesar dessa minha ignorância em saber o autor de tal pensamento, concordo plenamente com ele. A partir do momento em que comecei a pesquisar, ler e aprender sobre a origem da vida, do universo e tudo mais (42?), eu nunca mais fui o mesmo. Embarquei, inadvertidamente, em um oceano cheio de descobertas para mais perguntas. E cada resposta que eu obtive, trouxe perguntas ainda mais misteriosas. E a pergunta majoritária que eu tive, depois de tanto ler, aprender e refletir é a seguinte: Como pode alguém, por mais importante que seja em nossa sociedade, achar que é o centro do mundo?

Eu já, há muito tempo, coloquei-me na mais modesta, humilde e, por que não?, sincera posição em relação à vida. Eu não sou nada. Quiçá um dia eu mude o mundo, invente algo sensacional, traga esperança, mude a vida de milhares de pessoas. Terei eu feito a minha parte? Não, para mim, não. Talvez para alguém que ainda pense ser especial, sim, eu tenha feito a diferença. Porém, penso eu, qualquer vida que eu tenha porventura mudado, será apenas isso, uma ínfima vida. Uma vida, uma poeira cósmica, um grão de existência dentro da existência eterna do universo, apenas uma singela vida entre bilhões delas, em um planeta, entre bilhões deles, em um sistema estelar, entre trilhões deles, dentro de uma galáxia, dentre centenas de bilhões delas. Quando penso “Quão importante eu sou dentro do universo?”, posso ser otimista e egocêntrico e responder “Sou tão importante quanto qualquer outro ser humano.”, mas também sinto que devo ser realista e responder “Eu? Importante no universo?”.

Por isso volto ao pensamento filosófico “A ignorância é uma bênção.”, porque eu, por muitas vezes, adoraria nunca ter embarcado nessa aventura cheia de aprendizados sobre o tudo (que leva, por enquanto, ao nada). Eu sinto que, talvez, seria muito mais feliz se apenas vivesse pacatamente a minha vida, sem saber o que raios significa anos-luz, Big-Bang, realidade relativa do espaço-tempo, o que existia antes do universo, o que criou o universo, o que criou aquilo que criou o universo, o que vem depois, como surgiu a vida e porque diabos a nossa tão avançada ciência ainda não conseguiu criar a vida (que, convenhamos, parece tão banal) de forma artificial.

Às vezes invejo aquele senhor que vive em um vilarejo interiorano afastado de qualquer civilização e que, justamente pela sua abençoada ignorância, apenas vive. Acorda, faz seus afazeres diários, come, cuida do que é seu, e volta a dormir. Sem pensar no universo. Sem se preocupar com a vida. É apenas egocêntrico, sem saber que o é. Vive para si mesmo e, apesar das dificuldades da vida, vive em paz.

Quando criança, eu era assim. Meus únicos pensamento e preocupação eram brincar. Inventar mundos e, que ironia, universos onde eu me divertia com meus brinquedos.
Mas, apesar de eu sempre me divertir ao ler e saber mais sobre o universo e querer saber, infinitamente, cada vez mais, eu só sei que nada sei. E como uma amiga minha confessou para mim certa vez, e eu concordei plenamente com ela, só lamento a finitude da vida porque essa finitude jamais me permitirá conhecer a infinitude do universo.

Ao menos, espero eu, que ao final da nossa vida, possamos finalmente obter o infinito conhecimento de tudo aquilo que faz a nossa vida ter sempre um fim. Se é que ela tem um fim.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Apenas um

Quando eu acordo pela manhã, ainda deitado, eu olho para o lado. E você não está mais ali. Quando levanto, ainda pela tarde manhã, eu imagino que você ainda está aqui. Quando entendo que você não está nem mais na minha vida, eu quero voltar a dormir.
Quando eu então me lembro do seu cheiro e dos seus dedos a segurar meus cabelos, eu lembro também quando nós dois sonhávamos em ser apenas um. Lembro das promessas e planos, das viagens e das brigas. Daquelas idiotas brigas que serviam apenas para perceber que nunca mais iríamos nos separar.
Quando eu me lembro da nossa despedida e do nosso último e apaixonado beijo, eu começo a entender a azeda ironia da vida. Eu então compreendo que o grande amor que surge em nossa vida não é o último, mas como eu queria que fosse. Porque, se o grande amor que surgiu em minha vida ficou, assim, no passado, o que posso eu esperar do futuro? O que posso eu esperar, sabendo que o grande amor da minha vida ficou, ali, no passado?
Não sei para onde ir, não sei o que fazer, não sei sequer o que pensar. Só sei pensar em você, em nosso passado e no presente que você foi.
E é nesses momentos tolos, que me machucam e que, acredite, eu sei que nunca irão me abandonar, que eu penso em tudo o que eu fiz. E olho para trás pensando que sim, fiz tudo o que podia. Na verdade, fiz mais do que podia.
Mas como todo relacionamento, havia ali um outro lado. Um outro ponto de vista. Uma outra resposta. E essa outra resposta não foi aquela que eu havia por tanto tempo sonhado. Ela apenas, foi.
Não, meu amor, não te odeio. Ouso dizer que amo-te ainda mais por causa disso. Apesar de saber e de ter a certeza, de que essa decisão foi errada. E eu sei que algum dia, você irá entender isso.
Eu apenas não sei se, quando isso acontecer, será tarde. Não sei. Meu coração insiste em dizer que não, não será tarde. Enquanto racionalmente eu simplesmente não faço ideia.
E como eu sempre fiz, continuarei a fazer. Vou, sim, continuar escutando o meu coração. E deixo um conselho, por que você não faz o mesmo? Para o meu, para o seu, para o nosso próprio bem.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Ambígua noite

Cada noite deveria ter a sua própria testemunha biográfica. Cada noite deveria ter alguém que a visse de longe e anotasse cada detalhe de cada acontecimento. Mas nem todas a têm. Essa tinha. E eis o que dela foi escrito.

A noite de hoje pode e deve ser resumida em duas pessoas. Ele e ela. Ele morava em um canto da cidade e ela, no outro. Ele seguiu sua rotina e se arrumou para sair de casa, rumo a alguma balada qualquer. Ela vestiu seus pijamas, rumo a algum sonho qualquer. Ele saiu de casa para encontrar seus amigos, já com a certeza que voltaria para casa totalmente embriagado e feliz. Ela foi para a cama, já com a certeza de que encontraria seu sono, iria dormir tranquilamente e acordaria no dia seguinte, como sempre, infeliz.

Ele e seus amigos entraram em uma balada já bêbados e felizes, dançaram como loucos, beberam como sóbrios e se divertiram como sempre. Ela fechou os olhos e esperou o sono, os sonhos e, como sempre, o infeliz amanhecer.

Ele saiu da balada acompanhado dela, com quem iria para casa, “Espero”, pensou ele, não para dormir. Enquanto ela sonhava que estava indo para casa com ele, para onde iriam “Espero”, pensou ela, dormir. Ele chegou em casa com ela, e com ela fez tudo, menos dormir. No sonho dela, ela chegou na casa dele, onde tudo o que fizeram foi, dormir.

No final da feliz noite, ou no começo do infeliz amanhecer, ele e ela dormiram. Ele vazio e infeliz. E ela, completa e feliz.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Olhava pela janela

quando criança
olhava pela janela
o mundo ainda pequeno
a vida já vivida

em busca da redenção
olhava pela janela
criando sonhos lúcidos
ouvindo músicas mortas

quando adulto
olhava pela janela
olhava para o passado
não via nada no futuro

quando morto
olhava para a música
lembrava sonhos lúdicos
brincava com a vida
vivida

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Pantufinhas

Ela se sentou na cama e enfiou o pé na pantufa. Pantufinha formato pata de dinossauro, daquelas que fazem você lembrar que a infância só acaba para quem não a quer mais. O ar gelado daquela manhã arrepiou sua pele e o bocejo avisou que o sono ainda não tinha ido embora.

Quando saiu de casa, o vento soprava forte carregando as folhas secas do outono pelo chão. Vestia um sobretudo charmoso e usava um grande cachecol. Caminhava sem rumo. Mãos dentro do bolso e pensamentos fora da realidade. Queria saber para onde ir, e como não sabia de mais nada, ia. Ela mesma era uma folha seca.

Entrou em uma padaria e sentiu o cheirinho dos pães recém saídos do forno. Não sentia fome. Pediu um café. Estranhamente, não o adoçou. Contemplava o vapor que saía da xícara e lembrou da época em que tomava leite quentinho, que sua mãe levava em sua cama.

Notou que a observavam. Não uma, nem duas pessoas. Várias. Não se importou. Continuou bebendo calmamente o café, enquanto decidia se pedia ou não um pão de queijo. Não pediu.

Foi caminhando, esperando por algo acontecer. Mesmo sem rumo algum na vida, sorria. Sentia-se acalentada não sabendo bem pelo quê. Queria ter menos problemas e mais soluções. Queria voltar à primavera, voltar à infância, voltar a sentir o seu coração batendo.

Se ela tivesse olhado para baixo, veria que já tinha voltado. As suas pantufinhas ainda estavam ali, nos seus pés, tentando levá-la para aquele passado que ela nunca tinha deixado de visitar.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O taxista

Ele errou. Sabia disso, sabia que tinha errado. Sabia que não deveria ter deixado que ela saísse por aquela porta daquele apartamento. E sabia que agora era tarde demais para correr pela rua na tentativa de alcançá-la e fazê-la mudar de ideia. Ofegante, estava parado na janela, observando-a caminhar pela noite, pela rua, rumo a uma esquina. Pegou o celular no bolso e pensou em discar o número dela. Desistiu. Ela não atenderia.

Ao virar uma esquina, ela parou debaixo de uma marquise. Abriu a bolsa, pegou seu celular e ficou olhando-o, na esperança que ele ligasse para pedir desculpas. Mas na tela, apenas o horário dizia a ela que aquela madrugada nunca mais seria esquecida. Ela discou o número dele, mas desligou em seguida. Então, chamou um táxi, pediu que ele viesse rápido e continuou caminhando.

Em algum lugar qualquer, um taxista recebeu uma chamada no rádio. Anotou o endereço no bloquinho grudado no para-brisa e embrulhou seu sanduíche. Ligou o carro sem saber que naquela madrugada, iria mudar a vida de dois alguéns.

No apartamento, ele tirou a camisa, e abriu outra garrafa de vinho. Mas esse era nacional, barato, como ele mesmo se sentia. Afinal, iria beber sozinho. No gargalo mesmo, deu um longo gole. Suspirou e recostou a cabeça no sofá. Sabia que por aquela porta daquele apartamento, uma história havia acabado de terminar. Culpa do orgulho, do ciúme. Culpa dele. Enquanto discutiam, ela chorou. Ele gritou. Ela implorou. Ele terminou. Ela se foi. E ele ficou. Arrependido.

Caminhando no meio da rua, ela ainda chorava. Levava a manga do casaco ao rosto, para secar as lágrimas e as gotas da fina chuva que caía. Queria entrar novamente por aquela porta daquele apartamento, mas não deveria. O fim tinha chegado. E só restava a ela continuar caminhando.

Ele se levantou do sofá, acendeu um cigarro e foi até a janela. Precisava pensar. Precisava decidir. Olhou novamente para a esquina, na vã esperança que ela surgisse novamente por ali. Esperando por ele. Enquanto olhava, um táxi passou em frente ao seu prédio e virou naquela mesma esquina, naquela mesma direção.

O taxista parou na esquina e virou. Falaram que ele precisava chegar rápido. E ele chegou.

Caminhando pela rua, ela chorava. Estava ali, mas seus embriagados pensamentos estavam longe. Estavam nele. Então, ouviu uma buzina e uma freada brusca.

O taxista acelerava quando viu um vulto à sua frente, no meio da rua. Por instinto, buzinou e pisou bruscamente no freio. Se a rua estivesse seca o final seria diferente. Mas não estava. Não foi.

Na janela do apartamento, ele ouviu uma buzina, uma freada e um grito. Se assustou.

Na rua molhada, ali estava ela deitada no chão. O taxista saiu do carro, olhou para ela e chutou o pára-choque do táxi gritando vários palavrões. Se aproximou dela, e viu que ela chorava. Ou então, era a chuva. Voltou para dentro do táxi e pegou o rádio para chamar socorro. Enquanto ele falava, outro táxi chegou. Era o táxi que ela havia chamado. O outro taxista desceu e conversaram. Um iria buscar um empresário que estava atrasado para pegar um vôo. O outro, iria pegar uma garota que estaria esperando naquela rua.

Da janela do apartamento, ele ouviu seu celular tocar. Foi até ele e olhou para a tela. Era ela. Não sabia se deveria atender ou não. Pensou um pouco, deu outro gole no vinho e atendeu. Um homem falou. E a garrafa de vinho caiu no chão, sujando o tapete de vermelho.

Na rua, um dos taxistas colocou o celular dela de volta na bolsa. Conversaram com ela e a ajudaram a se levantar. Ela estava bem. Com o braço e a perna levemente machucados, claro, mas bem. Da esquina, um homem sem camisa veio correndo. Também estava chorando por causa da chuva. Conversou com os dois taxistas e entendeu o que havia acontecido. Perguntou se ela estava bem e ela respondeu que sim, mostrando apenas o braço e a perna. Um dos taxistas perguntou se ela precisava ir a um hospital, mas ela disse que não. O outro taxista pediu desculpas e licença, entrou no carro e foi em busca do seu ainda mais atrasado cliente. Ela disse que queria apenas ir para casa. O taxista que viera buscá-la então perguntou se ela precisava de alguma carona, por cortesia. Ela disse que não, que a casa dela era logo ali, num apartamento virando aquela esquina. Então o taxista deixou seu número de celular, para o caso de alguma emergência, e foi embora. Então, ela olhou para aquele homem sem camisa e o abraçou, totalmente molhada por causa das lágrimas e da chuva. Ele a abraçou e foram para o apartamento que agora, era novamente deles.