terça-feira, 12 de março de 2013

Essas idas e vindas



Eu sempre imagino as histórias que determinados lugares nos contariam, caso pudessem e quisessem nos falar. Assentos de táxis. Assentos de ônibus. Salas de espera de hospitais. Salas de espera de maternidades. Cemitérios. Celulares! Porém, o local com as mais íntimas histórias escondidas é o aeroporto.
Porque naquele saguão daquele aeroporto está um senhor sentado e bebendo, em uma mesa, um copo de chopp. Ele está bebendo com a vontade que um senhor de 55 anos beberia. Ele bebe por um motivo muito específico: nervosismo. Muitos anos atrás, naquele mesmo local lá se foi sua pequena filha, depois de uma briga feia.
E agora ela está voltando, trazendo nos braços um pequeno filho.

Na mesa ao lado um jovem garoto conversa com uma jovem garota. Um de frente para o outro, mas com as mãos dadas e esticadas sobre a mesa. Do lado dele, a promessa “Você está indo embora, mas me espere, porque irei atrás de você!” e do outro lado, ela responde com lágrimas nos olhos o que seu coração queria dizer “Venha, porque estarei te esperando.”.

Em outra mesa, uma mulher que não tem mais do que 40 anos olha para o nada, assertiva. Até que seu celular toca. Ela atende, sorri e se levanta sem nunca nos dizer o que estava acontecendo.

Na ala de desembarque, um rapaz está esperando pacientemente. Um funcionário do aeroporto se aproxima dele e diz “Oi, teu nome é...” “Sim, sou eu.” “Isso é pra você.”. O rapaz sorri, agradece e pega uma mala. Sem sequer sair do lugar, ele a abre. É a vodka francesa que ele esperou por tanto tempo. Natasha. Ele fecha a mala e vai embora, sonhando com um novo e melhor amanhã.

Em outra ala de desembarque, outro rapaz está esperando com uma placa levantada que diz o nome de uma garota, circundada por um coração. E ele continuou ali esperando, até entender que a garota nunca viria.

Na sala de espera para entrar no avião, um homem fala com outro homem. Caso corriqueiro, claro, exceto pelo fato dos dois homens serem exatamente iguais. Irmãos gêmeos, um está indo para um país do hemisfério norte e o outro, para um país oriental. E pela primeira vez em suas vidas, eles não estarão juntos. Ao seu momento, um prometeu ao outro cuidar-se, manter a calma e criar uma nova vida.

Continuando as histórias que um aeroporto contaria se pudesse e quisesse contar, ali estão um homem e uma mulher. Cada um nos seus 30 anos bem vividos. Ela vai embarcar e ele vai ficar. Ela vai para a Itália e ele ficará por aqui. Ela irá em busca de novos sonhos e ele ficará, por aqui, sonhando por ela. Ela foi. Ele ficou, olhando para a Lua.

E no portão de entrada um jovem rapaz beija, efusivamente e dentre lágrimas, uma jovem garota. Eles se amam mas ela está indo embora para outro país. E como fizeram antes, na mesa, ele prometeu ir atrás dela. Ela prometeu que iria esperar por ele. E como terminou essa história, só os dois sabem.

E são essas poucas dentre muitas histórias que um aeroporto poderia contar. Se pudesse. E se quisesse.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Heleninha, virgem Heleninha




E aí veio a notícia. Heleninha, logo a casta Heleninha, estava grávida.

- Só pode ser do Espírito Santo, tipo Maria! - bradou a garota para as três amigas, durante o jantar semanal. - Nem namorado tenho. - completou. Vânia olhou para ela com desdém e comentou com Isabela, quase aos cochichos. - Se mulher só engravidasse com namorado, o mundo teria 8 pessoas.

As duas riram entre si. Heleninha, a imaculada Heleninha, ignorou as risadas, o motivo delas e desatou-se a chorar.

- E agora? Como vou contar aos meus pais? E meu Deus, quem é o pai?

Silêncio. As três amigas aguardavam as próximas palavras de Heleninha, que não vieram. Virgínia resolveu que era hora de intervir.

- Heleninha, com quem você andou dormindo?

- Dormindo? - protestou Vânia. - Dormindo!? - protestou novamente. - Com quem ela andou transando! Essa deveria ser a pergunta!

O silêncio agora era pontuado pelos soluços da virgem Heleninha.

- Com ninguém... Sou pura.

As três amigas começaram a rir. Pararam assim que perceberam que Heleninha, aparentemente, falava sério.

- Amiga, virgem não engravida. - atestou Vânia, demonstrando a você, leitor, ser a mais sexualmente ativa do grupo.

- Mas e Maria? - perguntou Isabela, também demonstrando a você, leitor, ser a mais religiosa do grupo.

- Maria está no céu. - interveio Virgínia, demonstrando não fazer ideia do que a palavra “contexto” significa.

Heleninha apenas soluçava dentre lágrimas. Vânia, em sua esperteza, pegou o celular de Heleninha, viu o nome do pai da futura criança e colocou o aparelho no ouvido.

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Paulo Coelho “igual o escritor”, como costumava repetir, queria apenas que o expediente da semana terminasse. Sexta-feira! O problema é que ainda era terça-feira. Conscientemente ignorando essa informação, ele apenas sonhava com um número: 18:00. A alforria. A hora de ir embora. A liberdade provisória que teria até o momento em que chegasse em casa e encontrasse a esposa, “uma vaca ciumenta, manipuladora e possessiva” como também costumava repetir. Aliás, vale citar que Paulo Coelho sempre repetia verdades universais como se fossem suas “igual o escritor”, como costumava... repetir.

Em todo caso, Paulo estava no trabalho quando seu telefone celular tocou. Era um número desconhecido.

- Alô?

- Paulo?

- É ele. Quem está falando?

- Paulo, é o seguinte. Você não me conhece, meu nome é Vânia e eu tenho algo muito importante pra te dizer. Você está em pé? Sente.

- Mas eu estou sentado.

- Então deite.

- …

- É o seguinte. Você vai ser pai.

É importante seguir o raciocínio que Paulo teve nesse momento. Seu cérebro estava hiperativo pelo excessivo consumo de café feito durante todo o interminável expediente. Segue o que se passou em sua mente naquele instante “Po, eu falei pra Julia se cuidar, tomar o remédio sempre. Não posso arcar com um bebê agora. Vou falar pra ela abortar. Isso! Não! Abortar é feio, Deus não gosta. Que merda, vou ter que me matar de HE (Hora Extra) pra poder pagar tudo que um bebê precisa. Sem falar que os pais dela, que já me odeiam, vão achar que fiz de propósito e então...”

- Paulo? - a voz de Vânia no telefone interrompeu tudo.

- Sim, diga.

- A Heleninha está grávida.

- Heleninha?

- Sim, a Heleninha.

- Mas eu não conheço nenhuma Heleninha. Sou casado.

- Você diz que é casado? E a Heleninha diz que é virgem, portanto...

- Mas é sério. Eu não conheço nenhuma Heleninha...

Nesse instante, Vânia olhou para o celular e notou a merda que fez.

- Paulo, desculpa, liguei para a pessoa errada.

- Já que está tudo errado, hoje pode ser sexta-feira?

- Pode!

Vânia desligou. Paulo mandou tudo à merda, se levantou e foi embora louco pra abraçar e fazer amor (coisa que só casados fazem e, quando fazem, é só no aniversário de casamento). Quando ele chegou em casa agarrando taradamente Julia, ela estranhou. Eles treparam. Ela, sendo uma vaca ciumenta e possessiva perguntou “quem mais ele estava comendo, já que ele nunca fizera aquilo e, já que não fizera, obviamente tinha aprendido com alguma outrazinha qualquer” pediu o divórcio. Totalmente arrasado, no dia seguinte ele foi demitido, por ter mandado tudo (leia-se, o chefe) à merda.

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Vânia estava segurando o telefone celular na mão. Com um leve remorso, olhou para a chorosa Heleninha.

- Amiga.

- Quê? - e prosseguiu a chorar.

- Quem é Paulo Coelho?

- Um escritor. - Heleninha, Isabela e Virgínia responderam juntas.

- Ok. Quem é o Paulo Coelho que está na sua agenda do celular?

- Ah, é meu chefe.

- Ok. - limitou-se a dizer Vânia, torcendo para que Paulo tivesse uma posição corporativa tão alta que jamais soubesse da existência de Heleninha. Claro, Vânia jamais saberia que Paulo seria demitido no dia seguinte.

- Amiga, sério. Quem pode ser o pai do seu filho? - perguntou Isabela.

- Ou filha, né! A gente nem sabe ainda. - questionou a feminista Virgínia.

- O que seja. - finalizou a polêmica, Vânia, completando. - Heleninha, para quem você... Deu... Nas últimas semanas?

- Pra ninguém. Sou pura. Sou virgem. - repetiu Heleninha, sob olhares reprovadores das três amigas que pensavam, coincidentemente, a mesma coisa, entre si “É claro que é.”.

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O nome do possível pai continuou em pauta dentre todas as três amigas por muito tempo. Mas é lógico que nenhuma delas falou um A para Heleninha. Afinal... Ela era casta e imaculada.
O tempo passou.

Até que veio a notícia. Heleninha, logo a casta Heleninha, não estava grávida. Já era outro jantar semanal.

- Espera, mas como não? - questionou Vânia.

- Foi erro do laboratório. - replicou Heleninha.

Todas comemoraram a não vinda de um outro rebento para o mundo. Todas, exceto Vânia, que pegou o próprio celular e mandou uma mensagem que dizia “Paulo, você está deitado? Se levante. Você não será pai!”

Mal sabia Vânia que Paulo já tinha se divorciado, estava solto no mundo, feliz e (naquele momento, bêbado) que, no momento em que recebeu a mensagem ligou para ela. O que ele disse?

- Ainda bem que não serei pai. Mas o que você acha de nós brincarmos de fábrica de bebês, agora?

Vânia disse um singelo “Sim.” para ele, se despediu das amigas e foi não só demonstrar a você, leitor, ser a mais sexualmente ativa do grupo, como foi provar.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O último primeiro encontro de um homem

1
Nem sei quem sou. Nem sei se serei homem ou não. Sou apenas um espermatozóide nadando num local que eu nunca estive antes, buscando algo que eu nunca vi antes, seguindo simplesmente os meus instintos genéticos. Ou seja, estou nadando em frente e rompendo todas e quaisquer barreiras que eu veja. Mas espere. O que é aquela coisa ali? É algo muito maior do que eu. Na dúvida, pergunto para outro espermatozóide ao meu lado:
- O que é aquilo?
E ele responde:
- Também não sei.
E eu, cada vez mais próximo, pergunto novamente:
- Sério, o que eu faço?
E ele responde:
- Não sei. Vá em frente! Porque eu estou indo!
E eu rapidamente vou. Bato e bato naquela estranha porta, com medo que ela se abra antes para o meu novo amigo ou para os outros estranhos que também estão batendo nela. Mas ela sutilmente se abre para mim. E eu entro. Só eu entro, até ela se fechar novamente.

2
Ok, ainda não sei quem eu sou. Só sei que estou nadando em um local muito quentinho e aconchegante. Estou sendo alimentado e aquecido em um local estranho, por uma pessoa estranha, através de uma estranha sonda acoplada em minha barriga. Mas tenho uma certeza pelo que eu consigo ver, sou um homem. Só não sei o que estou fazendo aqui. Tudo o que sei é que tenho algo que vou chamar de, sei lá, pé. Isso, tenho dois pés. E se eu quiser, posso movimentar esses... pés... com força. Então, vou tentar fazer algum movimento mais forte pra ver se acontece alguma coisa. E na falta de algum nome, vou chamar esse movimento de... chute! Isso. Vou dar um chute com os meus pés e ver o que acontece.

3
Esse lugar quentinho deixou de ser aconchegante. Está apertado. Continua quentinho, mas está muito desconfortável. Eu tenho que sair daqui. Posso? Poxa, não posso nem chutar mais. Esse lugar está apertado. Quero sair. Como posso fazer isso? Será que se eu tentar me esticar, posso sair?

4
Puta merda! Por que eu resolvi sair? Agora estou com frio, assustado e ainda me deram um tapa na bunda. Vou berrar o máximo que puder. Ao invés de me entenderem, estão dizendo que sou bonitinho, lindo e fofinho. Agora estão passando a mão em minha cabeça e, o mais estranho, é que a pessoa que passa a mão na minha cabeça é justamente quem me mantinha naquele lugar quentinho e aconchegante. Estou tentando berrar mais alto ainda, na esperança de voltar praquele lugar. Que saudades sinto.

5
Bom, me acostumei com essa nova moradia. Lugar chato esse. Todo dia, depois de eu andar por aí ela, que agora chamo de “mãe”, me pega e tira toda a minha roupa e me coloca num lugar com uma água quente que me lembra justamente aquele lugar quentinho e aconchegante que eu vivi antes. Pena que dura muito menos. Então ela, a minha mãe, me enxuga e coloca em mim aquela roupa que eu tanto odeio. Quisera eu voltar praquele lugar.

6
Estou num lugar que não entendo. Estou ao lado de muitas pessoas que, como eu, também se arrependem de terem saído daquele lugar quentinho. Lá na frente tem uma moça muito mais velha falando algo sobre “tabuada”. E essa moça pede que todos nós decoremos o que é tabuada de 4 por 7, porque “vai cair na prova”. E já que ela pediu tão gentilmente , eu decorei. Mas uma amiga minha não conseguiu decorar. E eu ajudei ela.

7
Estou nervoso. Mas muito nervoso. Na noite de hoje irei numa festa das pessoas da minha escola e lá estará aquela minha amiga que eu ajudei a decorar a tabuada. E não sei porque estou nervoso. Mas vou na festa.

8
Estou na festa das pessoas da minha sala. E ao meu lado estão todos os meus amigos. Lá longe, do outro lado do salão de festas, está aquela minha amiga que eu ajudei na tabuada. Eu nem deveria me importar com isso, mas não sei porque, estou me importando. Devo ou não ir lá falar com ela?

9
Não fui, ok? Fiquei a festa inteira ali, sentado no meu canto, bebendo coca-cola. Enchi a cara de coca-cola e fui embora. Mas no dia seguinte uma amiga dela falou para mim, nessas palavras “Sabe, ela ficou a noite toda da festa de ontem esperando você ir falar com ela.”. E eu nem acreditei, claro. Tudo o que eu pensei e falei para a amiga dela foi “Sério? Vou falar com ela hoje!”

10
E eu fui, ok? Cheguei perto dela e falei “Oi, vamos no cinema hoje?” no que ela respondeu “Ver o quê?” e eu, sem pensar, falei no primeiro filme idiota que eu sabia que estava em cartaz e, por sorte minha, ela disse “Sério? Estou louca para ver esse filme!” e combinamos de ir ao cinema.

11
No cinema, o filme idiota começou. E eu nem estava prestando atenção nele, é claro, porque eu queria era a atenção dela. Até que, de repente, o filme me deu de presente uma cena mais assustadora. E ela, deu-me de presente um abraço. Nos olhamos e nos beijamos. E esse filme de terror proporcionou para mim o primeiro peito que eu peguei maliciosamente com as minhas mãos. E foi por baixo da blusa. E claro que nenhum amigo meu jamais soube disso. Aham..................

12
“Ei, quer ver algum filme aqui em casa?” foi essa a mensagem que eu recebi, anos depois e enviada por uma conhecida minha, no meu celular. E respondi, inocentemente “Claro! Qual filme?” Depois de algumas horas de silêncio, ignorei a minha própria pergunta e me dirigi, inocentemente, até a casa dela. Ela me convidou para entrar e sim, colocou algum filme no aparelho de DVD. Depois de 5 minutos de filme, começamos a nos beijar de forma mais... intensa. E sim, nesse dia nós dois perdemos nossa pureza.

13
“Meu amor, preciso te falar algo.” foi o que eu ouvi da minha namorada quando voltei para casa. “O quê?” perguntei, sem nem pensar. “Eu acho que nós estamos grávidos...” ela disse, com medo que eu pudesse reagir de forma abrupta. “Sério? Isso é ótimo! Digo, temos que planejar muitas coisas de agora para frente, mas é ótimo isso!” eu falei, de forma sincera e cheio de amor. E sim, era sério...

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Ele nem sabe quem é. Não sabe se será homem ou mulher. Aquilo é apenas um espermatozóide nadando num local que nunca esteve antes, buscando algo que nunca viu antes, seguindo simplesmente os seus instintos genéticos. E foi em frente...

15
Ali está ela. Eu nem acredito que sou pai, que virei homem, que cresci.

16
E aqui está o meu último primeiro encontro, o qual eu faço com muito orgulho. É o momento em que ela, esse pequeno ser feminino, está apertando meu dedo indicador. E dessa pequena princesa eu mal posso esperar que fale apenas uma palavra para me completar: Papai.

sábado, 19 de maio de 2012

Iguais diferenças

Estamos no ano de 1954.

O que somos nós, a raça humana? Sim, aparentemente somos a espécie mais desenvolvida dentre todas as outras. E por isso a lei dos mais adaptados, que Darwin explicou tão bem, cabe a nós. Se nós somos os mais adaptados, obviamente e, naturalmente, devemos subjugar todas as outras formas de vida. Se isso é certo ou errado, não vou entrar nesse ponto agora (apesar de ter opiniões muito contundentes a respeito disso), mas o que interessa nesse meu devaneio aqui, é a nossa superioridade, não numérica, mas racional. Pois bem, a nossa honorável espécie branca humana é superiora a todas as outras espécies vivas desse planeta. Nós pensamos, nós temos um raciocínio tão avançado a ponto de eu mesmo estar aqui escrevendo isso, para que vocês que estão aí, possam ler. E isso é sim, algo superior.

E graças às pesquisas feitas pelos nossos atuais antropólogos, nós podemos subjugar os nossos inferiores. Segundo Darwin e segundo todos os evolucionistas, nós viemos dos macacos. Pois sim, um dia os macacos se desenvolveram a ponto de descerem de suas confortáveis árvores e resolveram caminhar no chão. Caminharam e se desenvolveram muito, e por muitos milhares de anos, a ponto de chegarem onde estamos agora. E é claro, nem é preciso ser um pesquisador antropólogo para concluir que, após milhares de anos, a sequência de adaptação foi simplesmente a seguinte: macacos nas árvores, macacos andando, humanóides negros, humanóides morenos, homens superiores brancos.

E é por isso que estou aqui escrevendo isso. Porque a adaptação fez de nós, homens brancos, seres superiores a quaisquer outra espécie no mundo. Seja essa espécie uma galinha, um lobo ou um homem negro. E é por esse motivo que eu defendo a separação racial nos ônibus, por exemplo. Eu não quero e nem preciso sentar ao lado de um homem inferior negro. Esses homens e mulheres que sentem, no fundo do ônibus, sorrindo de alegria. Eles que sentem lá, enquanto eu sento aqui na frente, sorrindo também.

Estamos agora no ano de 2011.


Estou aqui sentado ao lado de um grande amigo meu, pretinho como carvão (opa, segundo a patética cartilha do politicamente correto e sob riscos de ser processado, tenho que chamá-lo de outra forma, mesmo que ele não se importe como eu o chamo), ao lado do meu grande amigo afro-descendente, esperando o nosso ponto para descer, que ainda está longe. Enquanto esperamos, entra no ônibus um casal de homens, com a nossa mesma idade. Mas, um casal de homens.

Eu e o meu negro amigo, sequer nos importamos. Afinal, são apenas outras duas pessoas como nós o somos. Mas eles entram e, caminhando de mãos dadas, vão andando e sentam lá, no final do ônibus, sorrindo. Continuo conversando com o meu amigo frivolidades da vida, subterfúgios aleatórios, coisas banais que todo amigo conversa com o outro no dia a dia, até que nós dois escutamos uma voz alta e mais imperativa falando “Que sem vergonhice é essa?”. Era um outro homem, com a mesma idade que a nossa. Esse homem falava isso, enquanto apontava para o casal que acabara de sentar sorrindo lá no fundo do ônibus.

E nesse momento eu tive a óbvia epifania e conclusão que qualquer outra pessoa racional teria tido. Em uma sociedade banal, o que incomoda não é a raça diferente ou orientação sexual diferenciada. O que incomoda é a felicidade alheia.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O finito infinito

Da vida nada levamos. Exceto, talvez, a experiência. Mas isso depende da crença (ou da falta dela) de cada um. Pensar que somos feitos apenas, ou da poeira das estrelas que já partiram, ou dos restos do que um dia foi a explosão inicial que deu origem a tudo, me conforta. E, ao mesmo tempo, me inquieta.

“A ignorância é uma bênção.” já disse algum sábio filósofo cujo nome desconheço. Porém, apesar dessa minha ignorância em saber o autor de tal pensamento, concordo plenamente com ele. A partir do momento em que comecei a pesquisar, ler e aprender sobre a origem da vida, do universo e tudo mais (42?), eu nunca mais fui o mesmo. Embarquei, inadvertidamente, em um oceano cheio de descobertas para mais perguntas. E cada resposta que eu obtive, trouxe perguntas ainda mais misteriosas. E a pergunta majoritária que eu tive, depois de tanto ler, aprender e refletir é a seguinte: Como pode alguém, por mais importante que seja em nossa sociedade, achar que é o centro do mundo?

Eu já, há muito tempo, coloquei-me na mais modesta, humilde e, por que não?, sincera posição em relação à vida. Eu não sou nada. Quiçá um dia eu mude o mundo, invente algo sensacional, traga esperança, mude a vida de milhares de pessoas. Terei eu feito a minha parte? Não, para mim, não. Talvez para alguém que ainda pense ser especial, sim, eu tenha feito a diferença. Porém, penso eu, qualquer vida que eu tenha porventura mudado, será apenas isso, uma ínfima vida. Uma vida, uma poeira cósmica, um grão de existência dentro da existência eterna do universo, apenas uma singela vida entre bilhões delas, em um planeta, entre bilhões deles, em um sistema estelar, entre trilhões deles, dentro de uma galáxia, dentre centenas de bilhões delas. Quando penso “Quão importante eu sou dentro do universo?”, posso ser otimista e egocêntrico e responder “Sou tão importante quanto qualquer outro ser humano.”, mas também sinto que devo ser realista e responder “Eu? Importante no universo?”.

Por isso volto ao pensamento filosófico “A ignorância é uma bênção.”, porque eu, por muitas vezes, adoraria nunca ter embarcado nessa aventura cheia de aprendizados sobre o tudo (que leva, por enquanto, ao nada). Eu sinto que, talvez, seria muito mais feliz se apenas vivesse pacatamente a minha vida, sem saber o que raios significa anos-luz, Big-Bang, realidade relativa do espaço-tempo, o que existia antes do universo, o que criou o universo, o que criou aquilo que criou o universo, o que vem depois, como surgiu a vida e porque diabos a nossa tão avançada ciência ainda não conseguiu criar a vida (que, convenhamos, parece tão banal) de forma artificial.

Às vezes invejo aquele senhor que vive em um vilarejo interiorano afastado de qualquer civilização e que, justamente pela sua abençoada ignorância, apenas vive. Acorda, faz seus afazeres diários, come, cuida do que é seu, e volta a dormir. Sem pensar no universo. Sem se preocupar com a vida. É apenas egocêntrico, sem saber que o é. Vive para si mesmo e, apesar das dificuldades da vida, vive em paz.

Quando criança, eu era assim. Meus únicos pensamento e preocupação eram brincar. Inventar mundos e, que ironia, universos onde eu me divertia com meus brinquedos.
Mas, apesar de eu sempre me divertir ao ler e saber mais sobre o universo e querer saber, infinitamente, cada vez mais, eu só sei que nada sei. E como uma amiga minha confessou para mim certa vez, e eu concordei plenamente com ela, só lamento a finitude da vida porque essa finitude jamais me permitirá conhecer a infinitude do universo.

Ao menos, espero eu, que ao final da nossa vida, possamos finalmente obter o infinito conhecimento de tudo aquilo que faz a nossa vida ter sempre um fim. Se é que ela tem um fim.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Apenas um

Quando eu acordo pela manhã, ainda deitado, eu olho para o lado. E você não está mais ali. Quando levanto, ainda pela tarde manhã, eu imagino que você ainda está aqui. Quando entendo que você não está nem mais na minha vida, eu quero voltar a dormir.
Quando eu então me lembro do seu cheiro e dos seus dedos a segurar meus cabelos, eu lembro também quando nós dois sonhávamos em ser apenas um. Lembro das promessas e planos, das viagens e das brigas. Daquelas idiotas brigas que serviam apenas para perceber que nunca mais iríamos nos separar.
Quando eu me lembro da nossa despedida e do nosso último e apaixonado beijo, eu começo a entender a azeda ironia da vida. Eu então compreendo que o grande amor que surge em nossa vida não é o último, mas como eu queria que fosse. Porque, se o grande amor que surgiu em minha vida ficou, assim, no passado, o que posso eu esperar do futuro? O que posso eu esperar, sabendo que o grande amor da minha vida ficou, ali, no passado?
Não sei para onde ir, não sei o que fazer, não sei sequer o que pensar. Só sei pensar em você, em nosso passado e no presente que você foi.
E é nesses momentos tolos, que me machucam e que, acredite, eu sei que nunca irão me abandonar, que eu penso em tudo o que eu fiz. E olho para trás pensando que sim, fiz tudo o que podia. Na verdade, fiz mais do que podia.
Mas como todo relacionamento, havia ali um outro lado. Um outro ponto de vista. Uma outra resposta. E essa outra resposta não foi aquela que eu havia por tanto tempo sonhado. Ela apenas, foi.
Não, meu amor, não te odeio. Ouso dizer que amo-te ainda mais por causa disso. Apesar de saber e de ter a certeza, de que essa decisão foi errada. E eu sei que algum dia, você irá entender isso.
Eu apenas não sei se, quando isso acontecer, será tarde. Não sei. Meu coração insiste em dizer que não, não será tarde. Enquanto racionalmente eu simplesmente não faço ideia.
E como eu sempre fiz, continuarei a fazer. Vou, sim, continuar escutando o meu coração. E deixo um conselho, por que você não faz o mesmo? Para o meu, para o seu, para o nosso próprio bem.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Ambígua noite

Cada noite deveria ter a sua própria testemunha biográfica. Cada noite deveria ter alguém que a visse de longe e anotasse cada detalhe de cada acontecimento. Mas nem todas a têm. Essa tinha. E eis o que dela foi escrito.

A noite de hoje pode e deve ser resumida em duas pessoas. Ele e ela. Ele morava em um canto da cidade e ela, no outro. Ele seguiu sua rotina e se arrumou para sair de casa, rumo a alguma balada qualquer. Ela vestiu seus pijamas, rumo a algum sonho qualquer. Ele saiu de casa para encontrar seus amigos, já com a certeza que voltaria para casa totalmente embriagado e feliz. Ela foi para a cama, já com a certeza de que encontraria seu sono, iria dormir tranquilamente e acordaria no dia seguinte, como sempre, infeliz.

Ele e seus amigos entraram em uma balada já bêbados e felizes, dançaram como loucos, beberam como sóbrios e se divertiram como sempre. Ela fechou os olhos e esperou o sono, os sonhos e, como sempre, o infeliz amanhecer.

Ele saiu da balada acompanhado dela, com quem iria para casa, “Espero”, pensou ele, não para dormir. Enquanto ela sonhava que estava indo para casa com ele, para onde iriam “Espero”, pensou ela, dormir. Ele chegou em casa com ela, e com ela fez tudo, menos dormir. No sonho dela, ela chegou na casa dele, onde tudo o que fizeram foi, dormir.

No final da feliz noite, ou no começo do infeliz amanhecer, ele e ela dormiram. Ele vazio e infeliz. E ela, completa e feliz.