sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Apenas olhe para frente



Dentro do ônibus, eu olhei pra você.
Com medo de você notar.
E com a mesma esperança. Note-me!
Olhei com cuidado, pra não te constranger.
E olhei com atenção, esperando você notar.

Dentro daquele ônibus, olhei de novo pra você.
E você olhava para alguém, pelo celular.
Continuei, até você olhar pra frente, pra mim.
Desviei o olhar.

Você voltou a olhar para alguém pelo celular.
E eu, bom, eu voltei a te olhar.
Continuei olhando a sua beleza, o seu olhar.
Olhei seus cabelos, seu rosto e seu sorriso.
E você sorrindo, olhando para o celular.

Continuei olhando para você, sabendo o seu medo.
De ter um homem te olhando, quando não mais, em um ônibus.
Continuei te olhando, e você, olhando para o celular.
Quando você olhou para frente, para mim, desviei o olhar.

Sorri olhando para o lado, para fora da janela.
Mas na verdade, eu olhava para você, pelo reflexo.
E você olhando, diretamente, para mim. Sorri.
Mas não te olhei, não te vi. Para não te constranger.

Meu ponto chegou. Apertei o botão.
Olhei pra você já cheio de saudades.
Era a última olhada minha para você.
E você olhando para o celular, sorrindo.
Quando me levantei pra descer, você olhou pra mim.
Eu sorri. E você também. O ônibus parou. E eu desci.
Desci e vi você olhando e sorrindo pra mim pela última vez.
E eu te enxerguei, pela primeira vez.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Desabafo de um Homem para todas as Mulheres


Pois esse meu desabafo é para você, Mulher que por um acaso já cruzou meu caminho. Quero lhe pedir desculpas.

Peço-lhe desculpas pelo medo que eu fiz você sentir. Acredite, não foi minha intenção. Mas eu notei quando você me viu andando na rua à noite, ao seu encontro, e apressou o seu passo ou atravessou a rua. Eu vi e não só não te condeno, como eu te entendo. Me desculpe.

Peço desculpas por todas as vezes em que eu estive em um ônibus lotado e, tentando me virar de lado, aparentei estar me aproveitando de você. Não, eu não estava. Pelo contrário, eu me senti mais constrangido do que você. Porque, infelizmente, você já viveu situações piores dentro de um ônibus. E eu, não.

Eu, enquanto Homem, peço desculpas por todos os assovios e “elogios” que você ouve a cada dia, a cada passo, a cada esquina na rua. Porque assédio sexual não precisa ser físico. Na maioria das vezes, é dito.

Peço desculpas também pelos estupros que acontecem diariamente por aí. E peço mais desculpas ainda quando leio que “Estava andando de minissaia, é porque pediu.” ou “Com certeza provocou, por isso mereceu.”. Por isso peço desculpas pela hipocrisia que lhes é imposta de que – cadê a lógica? – a vítima é a culpada. Se a vítima é mulher, ela é sempre a culpada.

Só quero pedir desculpas pelo mundo machista em que vivemos. Em que a Mulher anda com medo pelas ruas, é assediada, abusada, humilhada, maltratada e... Culpada, por tudo o que os homens lhes fazem e falam.

Peço perdão, porque o Homem que é Homem, sabe como deve tratar as Mulheres. Já os homens infames, acham que a Mulher é seu objeto. Quando deveriam se lembrar que é da Mulher que veio o H(h)omem.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Mi! Obrigado.



Agradeço.

Você não apenas mudou a minha vida. Você a transformou.
Você não apenas veio e se foi. Você me transformou em alguém que acredita.
Acredita não apenas no amor, mas que acredita em si mesmo.

Você me mudou.

Antes de você eu era um alguém qualquer.
Agora sou alguém com alma. Com amor. Com algo a perder.
Acho que entendo que você entrou na minha vida para sair da forma que saiu.

De repente.

Com marcas para sempre.
E de repente eu entendi que sou muito mais do que jamais fui.

Agradeço.

Hoje eu vou além, eu arrisco, eu jogo os dados.
Hoje eu vivo. E não apenas existo.
Você abriu meus olhos para a vida. Para você. Para mim.

Você me ensinou que o amor é algo para se correr atrás.
Como eu corri atrás de você. Não deu certo, tudo bem...

Passou.

Mas com o passado veio uma visão de futuro.
Que apostar é sempre bom, e fodam-se as estatísticas.
E estou correndo atrás do meu futuro. Do jeito que eu quero que ele aconteça.
Se vai dar certo, só esse futuro dirá.

Mas por eu estar correndo atrás, agradeço a você.
Que me ensinou que a vida é mais do que viver.
A vida é surpreender. Como você me surpreendeu quando entrou na minha.
E como eu te surpreendi quando me propus a entrar na sua.
Não deu certo, mas tudo bem...

Hoje é o seu aniversário e eu só queria te prestar essa homenagem.
Você foi a mulher mais importante da minha vida. (Deixe minha mãe e irmã de lado)
E a mulher por quem eu estive disposto a largar a minha vida aqui.

Você foi quem eu sempre quis. E quero que seja feliz.
Seja, por favor, feliz. Porque é o que eu te desejo.

Michelle, você é maravilhosa. Saiba sempre disso.
Nunca se esqueça de que você mudou a vida de um homem.
Eu.

E sempre se lembre de que um homem quis largar,
A vida que tinha, para estar com você pra sempre.

Michelle, parabéns e feliz aniversário.
Sim, te amo por tudo!
E agradeço, do fundo do meu coração, por você ter entrado em minha vida.
Porque sem você, hoje eu seria,

Nada.

Obrigado.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Situações





Ele e Ela estão ali sentados na mesa de jantar dele, um de frente para o outro, bebericando a segunda garrafa de vinho. Levemente embriagados, os dois sorriem enquanto conversam relaxados. Ele tem 32 anos, Ela tem 27. Ele não quer entrar no assunto que Ela quer. Ela quer apenas que Ele tome a iniciativa e comece o papo. Enquanto isso...

O Outro e Ela estão ali sentados na mesa da lanchonete, um ao lado do outro, bebendo chopp. Totalmente à vontade, os dois sorriem enquanto conversam e fazem piadas um com o outro. O Outro tem apenas 20 anos e Ela tem 27. Ela não quer entrar no assunto que o Outro quer. O Outro quer que ela tome a iniciativa, porque essa espera faz parte da diversão. Enquanto isso...

Ele decidiu. “Olha, pra mim é o seguinte. Eu gosto muito de você e acho que a gente se deu muito bem juntos. Sabe, nos divertimos na cama e gosto de conversar com você.” Porém, Ela pensou consigo mesma que a diversão na cama nem foi lá aquelas coisas e a conversa nem é assim tão interessante, afinal, ele detesta filmes fantásticos e odeia Piratas do Caribe (ele gosta muito de Jackass). Sem saber direito o que responder, Ela apenas deu outro gole no vinho. E enquanto isso...

O Outro está bebendo um generoso gole de chopp. Ela sorri. E o Outro também. Então ele apenas diz “Sabe, adoro a sua foto de perfil no Facebook. Porque nessa foto você é você sem ser falsa. É espontânea e sexy.” Ela sorri pela sinceridade. E o Outro, apontando para a caneca de chopp “Vai, vira, porque vou pedir outros dois.”. Os dois viram o chopp.

Ele está olhando para Ela enquanto espera uma resposta. Ela termina de beber o vinho e olha para Ele, em silêncio. Ele, com a coragem que o álcool dá, emenda “E o que me diz de nós dois? Eu acho que somos um belo casal.” E Ela, também com a coragem que o álcool traz “Também acho. Eu sou bonita e você também é.” Ele sorri apenas por não saber outra forma de reagir. Ela sorri, por saber que ganhou o jogo.

Dois novos chopps na mesa. Ela e o Outro brindam. Ela ri. Ele complementa “É disso que eu to falando. Essa sua risada é espontânea. É você. E eu adoro isso.” Ela ruboriza e bebe um gole. Esse Outro sorri, bebe um gole e “Nunca mude!”

Ele enche o copo com mais vinho. Ela apenas observa. Ele pega a taça e aponta para que ela faça o mesmo. Ela faz. Eles brindam e Ele diz “A nós dois. Porque você é muito mais bonita do que a minha ex.” Ela apenas bebe, sabendo que Ele está se afundando nas próprias memórias.

“Eu acho que não vou mudar.” Ela diz, enquanto bebe outro gole de chopp. E o Outro sorri para ela, porque sabe que não é mais o Outro, quando diz “Mesmo que você mude, você sempre será você.”

Ela pergunta para Ele “Por que está falando da sua ex agora?” E Ele, entendendo a delicada situação, tenta consertar “Porque eu só queria te mostrar o quanto você é melhor do que ela.”. E Ela, num xeque-mate, finaliza “Se você achasse isso, sua ex nem teria entrado nesse assunto. Afinal, eu falei do meu ex? Não.”. Ele, por fim, enche novamente as taças de vinho. Resignado.

Ela termina o copo de chopp e dá um pequeno arrotinho, interno, sutil. O Outro quase se afoga enquanto bebe e ri da situação. Ele então diz “Eu sei que você tem mais idade do que eu, e eu sei que idade é apenas número, caso contrário, você não estaria aqui comigo.” E Ela, totalmente entregue nesse xeque-mate, apenas responde “É verdade...”.

Ela chama o táxi para ir embora. Ele, bebendo o resto do vinho da taça, apenas a observa. O interfone toca, Ele atende “Ok, ela já está descendo.” Ele abre a porta e ela se aproxima para o tchau. Um beijo carinhoso na bochecha. Ele está frustrado, ela também. E Ela vai embora.

Dentro do táxi, Ela pega o celular e telefona. Instantes depois, alguém atende e Ela pergunta “Oi, quer tomar um chopp em uma lanchonete?”

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Mas mais, mas...?


O Mais matou o Mas,
Porque, porém, ele era, apesar de tudo,
Menos.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Esse mundo


Esse mundo estranho. Paradoxal. Sazonal. Infame.
Um mundo que tem tanta coisa ruim. E que tem tantas outras coisas lindas.
Um mundo que teve Jesus Cristo e o Holocausto.
Tem um pôr do sol a cada dia e guerras, a cada dia.
Lágrimas que escorrem dos olhos quando descobrem assassinatos e mortes estúpidas causadas por pessoas embriagadas ao volante. E também, lágrimas que escorrem dos olhos que presenciam o nascimento de novos pequenos projetinhos de gente, lindos projetinhos, com carinha de joelho.
Mundo esse que viu tantas vezes a ganância sobrepujar pessoas, povos, culturas. E que também viu a arte sobrepujar essa mesma ganância.
Da infâmia dos déspotas, da benevolência dos anônimos.
Da pessoa que odeia outra só por ter uma cor de pele ou orientação sexual diferente da sua. E da pessoa que paga um almoço para um pobre desconhecido que apenas lhe pediu uma moedinha.
Um mundo em que as diferenças não entendem que são todas e todos iguais. Humanos.
Da porta do elevador mantida aberta para um outro alguém entrar. Do desejar bom dia sem esperar resposta.
Ou seja, um mundo cheio de pessoas estranhas. Infames. Medíocres.
Mas um mundo que mantém uma esperança para os diferentes, os bons, os que sonham ao pôr do sol e que desejam apenas, sorrir para sempre. Tipo, você.

terça-feira, 19 de março de 2013

O final é o começo



Ali está a jovem, bela e balzaquiana Cidinha, sentada em um café. Dentre goles em seu cappuccino, ela lê o livro de contos que um amigo lhe emprestara. “Leitura de banheiro”, segundo ele. “Por quê?”. “Oras, porque você senta, abre em uma página, lê e fecha. Rapidinho assim.” Apesar de não estar no banheiro, ela até que estava se interessando pela leitura. Quem também estava se interessando, não pela leitura, mas por ela, é o jovem rapaz sentado logo na mesa ao lado.
- Que voz, não?
- Oi? - falou Cidinha, um pouco incomodada com a intromissão “bem na hora que o Rubens ia convidar a Jussara para tomar um chopp!”
- Que voz tem esse autor, tão única, tão poética.
- Nunca vi nenhuma entrevista com ele. - e voltou a olhar para o livro, certa que passara o recado para o rapaz. Ou seja, puxe mais papo porque você é bonitinho.
- Qual conto você está lendo?
Cidinha voltou algumas páginas.
- “O final é o começo”, é o nome.
- O Rubens chamou a Jussara para um chopp, ela aceitou, eles dormiram juntos e depois de duas semanas tudo acabou.
- Mas... - e ela interrompeu ali, não querendo ofender o jovem rapaz. - Você estragou a surpresa do final!
- Eu só...
- Sério, estou ofendida. De que adianta ler algo já sabendo o final... Ai, como é o nome?
- Rubens.
- Spoiler! Odeio spoilers. Você me deve um pedido de desculpas...
- Posso me explicar?
- Depois das desculpas, pode.
- Desculpe. Então, eu só disse o final pra você pensar se vale a pena chegar até ele.
- Quê?!
- Oras, se mesmo sabendo o final você ainda quer chegar até ele, é porque vale a pena. Vale?
Cidinha estava atônita, olhando nos olhos e boca daquele jovem e bonitinho rapaz.
- Não sei, digo... Acho que vale.
- Bom, posso te pagar um chopp?
- Pode, claro.
- Ótimo, e me diga... Qual seu nome?
- Aparecida. E o seu?
- Rubens! O seu nome não é Jussara?
- Não, é Aparecida.
- É, acho que o autor errou dessa vez.
- Como?
- Não devia ser Aparecida, tinha que ser Jussara, como no conto.
- Mas isso não é um conto.
- Se não é, posso te chamar de Jussara?
- Pode, vai... Só porque você é bonitinho.
Rubens chamou o garçom e pediu dois chopps. Dez chopps depois, ele e Cidinha-Jussara foram para a casa dele. Dormiram juntos. E duas semanas depois, tudo havia acabado.