Quando eu acordo pela manhã, ainda deitado, eu olho para o lado. E você não está mais ali. Quando levanto, ainda pela tarde manhã, eu imagino que você ainda está aqui. Quando entendo que você não está nem mais na minha vida, eu quero voltar a dormir.
Quando eu então me lembro do seu cheiro e dos seus dedos a segurar meus cabelos, eu lembro também quando nós dois sonhávamos em ser apenas um. Lembro das promessas e planos, das viagens e das brigas. Daquelas idiotas brigas que serviam apenas para perceber que nunca mais iríamos nos separar.
Quando eu me lembro da nossa despedida e do nosso último e apaixonado beijo, eu começo a entender a azeda ironia da vida. Eu então compreendo que o grande amor que surge em nossa vida não é o último, mas como eu queria que fosse. Porque, se o grande amor que surgiu em minha vida ficou, assim, no passado, o que posso eu esperar do futuro? O que posso eu esperar, sabendo que o grande amor da minha vida ficou, ali, no passado?
Não sei para onde ir, não sei o que fazer, não sei sequer o que pensar. Só sei pensar em você, em nosso passado e no presente que você foi.
E é nesses momentos tolos, que me machucam e que, acredite, eu sei que nunca irão me abandonar, que eu penso em tudo o que eu fiz. E olho para trás pensando que sim, fiz tudo o que podia. Na verdade, fiz mais do que podia.
Mas como todo relacionamento, havia ali um outro lado. Um outro ponto de vista. Uma outra resposta. E essa outra resposta não foi aquela que eu havia por tanto tempo sonhado. Ela apenas, foi.
Não, meu amor, não te odeio. Ouso dizer que amo-te ainda mais por causa disso. Apesar de saber e de ter a certeza, de que essa decisão foi errada. E eu sei que algum dia, você irá entender isso.
Eu apenas não sei se, quando isso acontecer, será tarde. Não sei. Meu coração insiste em dizer que não, não será tarde. Enquanto racionalmente eu simplesmente não faço ideia.
E como eu sempre fiz, continuarei a fazer. Vou, sim, continuar escutando o meu coração. E deixo um conselho, por que você não faz o mesmo? Para o meu, para o seu, para o nosso próprio bem.
Bêbadas Palavras
Que eu escrevi. E embriague-se também.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
domingo, 4 de dezembro de 2011
Ambígua noite
Cada noite deveria ter a sua própria testemunha biográfica. Cada noite deveria ter alguém que a visse de longe e anotasse cada detalhe de cada acontecimento. Mas nem todas a têm. Essa tinha. E eis o que dela foi escrito.
A noite de hoje pode e deve ser resumida em duas pessoas. Ele e ela. Ele morava em um canto da cidade e ela, no outro. Ele seguiu sua rotina e se arrumou para sair de casa, rumo a alguma balada qualquer. Ela vestiu seus pijamas, rumo a algum sonho qualquer. Ele saiu de casa para encontrar seus amigos, já com a certeza que voltaria para casa totalmente embriagado e feliz. Ela foi para a cama, já com a certeza de que encontraria seu sono, iria dormir tranquilamente e acordaria no dia seguinte, como sempre, infeliz.
Ele e seus amigos entraram em uma balada já bêbados e felizes, dançaram como loucos, beberam como sóbrios e se divertiram como sempre. Ela fechou os olhos e esperou o sono, os sonhos e, como sempre, o infeliz amanhecer.
Ele saiu da balada acompanhado dela, com quem iria para casa, “Espero”, pensou ele, não para dormir. Enquanto ela sonhava que estava indo para casa com ele, para onde iriam “Espero”, pensou ela, dormir. Ele chegou em casa com ela, e com ela fez tudo, menos dormir. No sonho dela, ela chegou na casa dele, onde tudo o que fizeram foi, dormir.
No final da feliz noite, ou no começo do infeliz amanhecer, ele e ela dormiram. Ele vazio e infeliz. E ela, completa e feliz.
A noite de hoje pode e deve ser resumida em duas pessoas. Ele e ela. Ele morava em um canto da cidade e ela, no outro. Ele seguiu sua rotina e se arrumou para sair de casa, rumo a alguma balada qualquer. Ela vestiu seus pijamas, rumo a algum sonho qualquer. Ele saiu de casa para encontrar seus amigos, já com a certeza que voltaria para casa totalmente embriagado e feliz. Ela foi para a cama, já com a certeza de que encontraria seu sono, iria dormir tranquilamente e acordaria no dia seguinte, como sempre, infeliz.
Ele e seus amigos entraram em uma balada já bêbados e felizes, dançaram como loucos, beberam como sóbrios e se divertiram como sempre. Ela fechou os olhos e esperou o sono, os sonhos e, como sempre, o infeliz amanhecer.
Ele saiu da balada acompanhado dela, com quem iria para casa, “Espero”, pensou ele, não para dormir. Enquanto ela sonhava que estava indo para casa com ele, para onde iriam “Espero”, pensou ela, dormir. Ele chegou em casa com ela, e com ela fez tudo, menos dormir. No sonho dela, ela chegou na casa dele, onde tudo o que fizeram foi, dormir.
No final da feliz noite, ou no começo do infeliz amanhecer, ele e ela dormiram. Ele vazio e infeliz. E ela, completa e feliz.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Olhava pela janela
quando criança
olhava pela janela
o mundo ainda pequeno
a vida já vivida
em busca da redenção
olhava pela janela
criando sonhos lúcidos
ouvindo músicas mortas
quando adulto
olhava pela janela
olhava para o passado
não via nada no futuro
quando morto
olhava para a música
lembrava sonhos lúdicos
brincava com a vida
vivida
olhava pela janela
o mundo ainda pequeno
a vida já vivida
em busca da redenção
olhava pela janela
criando sonhos lúcidos
ouvindo músicas mortas
quando adulto
olhava pela janela
olhava para o passado
não via nada no futuro
quando morto
olhava para a música
lembrava sonhos lúdicos
brincava com a vida
vivida
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Pantufinhas
Ela se sentou na cama e enfiou o pé na pantufa. Pantufinha formato pata de dinossauro, daquelas que fazem você lembrar que a infância só acaba para quem não a quer mais. O ar gelado daquela manhã arrepiou sua pele e o bocejo avisou que o sono ainda não tinha ido embora.
Quando saiu de casa, o vento soprava forte carregando as folhas secas do outono pelo chão. Vestia um sobretudo charmoso e usava um grande cachecol. Caminhava sem rumo. Mãos dentro do bolso e pensamentos fora da realidade. Queria saber para onde ir, e como não sabia de mais nada, ia. Ela mesma era uma folha seca.
Entrou em uma padaria e sentiu o cheirinho dos pães recém saídos do forno. Não sentia fome. Pediu um café. Estranhamente, não o adoçou. Contemplava o vapor que saía da xícara e lembrou da época em que tomava leite quentinho, que sua mãe levava em sua cama.
Notou que a observavam. Não uma, nem duas pessoas. Várias. Não se importou. Continuou bebendo calmamente o café, enquanto decidia se pedia ou não um pão de queijo. Não pediu.
Foi caminhando, esperando por algo acontecer. Mesmo sem rumo algum na vida, sorria. Sentia-se acalentada não sabendo bem pelo quê. Queria ter menos problemas e mais soluções. Queria voltar à primavera, voltar à infância, voltar a sentir o seu coração batendo.
Se ela tivesse olhado para baixo, veria que já tinha voltado. As suas pantufinhas ainda estavam ali, nos seus pés, tentando levá-la para aquele passado que ela nunca tinha deixado de visitar.
Quando saiu de casa, o vento soprava forte carregando as folhas secas do outono pelo chão. Vestia um sobretudo charmoso e usava um grande cachecol. Caminhava sem rumo. Mãos dentro do bolso e pensamentos fora da realidade. Queria saber para onde ir, e como não sabia de mais nada, ia. Ela mesma era uma folha seca.
Entrou em uma padaria e sentiu o cheirinho dos pães recém saídos do forno. Não sentia fome. Pediu um café. Estranhamente, não o adoçou. Contemplava o vapor que saía da xícara e lembrou da época em que tomava leite quentinho, que sua mãe levava em sua cama.
Notou que a observavam. Não uma, nem duas pessoas. Várias. Não se importou. Continuou bebendo calmamente o café, enquanto decidia se pedia ou não um pão de queijo. Não pediu.
Foi caminhando, esperando por algo acontecer. Mesmo sem rumo algum na vida, sorria. Sentia-se acalentada não sabendo bem pelo quê. Queria ter menos problemas e mais soluções. Queria voltar à primavera, voltar à infância, voltar a sentir o seu coração batendo.
Se ela tivesse olhado para baixo, veria que já tinha voltado. As suas pantufinhas ainda estavam ali, nos seus pés, tentando levá-la para aquele passado que ela nunca tinha deixado de visitar.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
O taxista
Ele errou. Sabia disso, sabia que tinha errado. Sabia que não deveria ter deixado que ela saísse por aquela porta daquele apartamento. E sabia que agora era tarde demais para correr pela rua na tentativa de alcançá-la e fazê-la mudar de ideia. Ofegante, estava parado na janela, observando-a caminhar pela noite, pela rua, rumo a uma esquina. Pegou o celular no bolso e pensou em discar o número dela. Desistiu. Ela não atenderia.
Ao virar uma esquina, ela parou debaixo de uma marquise. Abriu a bolsa, pegou seu celular e ficou olhando-o, na esperança que ele ligasse para pedir desculpas. Mas na tela, apenas o horário dizia a ela que aquela madrugada nunca mais seria esquecida. Ela discou o número dele, mas desligou em seguida. Então, chamou um táxi, pediu que ele viesse rápido e continuou caminhando.
Em algum lugar qualquer, um taxista recebeu uma chamada no rádio. Anotou o endereço no bloquinho grudado no para-brisa e embrulhou seu sanduíche. Ligou o carro sem saber que naquela madrugada, iria mudar a vida de dois alguéns.
No apartamento, ele tirou a camisa, e abriu outra garrafa de vinho. Mas esse era nacional, barato, como ele mesmo se sentia. Afinal, iria beber sozinho. No gargalo mesmo, deu um longo gole. Suspirou e recostou a cabeça no sofá. Sabia que por aquela porta daquele apartamento, uma história havia acabado de terminar. Culpa do orgulho, do ciúme. Culpa dele. Enquanto discutiam, ela chorou. Ele gritou. Ela implorou. Ele terminou. Ela se foi. E ele ficou. Arrependido.
Caminhando no meio da rua, ela ainda chorava. Levava a manga do casaco ao rosto, para secar as lágrimas e as gotas da fina chuva que caía. Queria entrar novamente por aquela porta daquele apartamento, mas não deveria. O fim tinha chegado. E só restava a ela continuar caminhando.
Ele se levantou do sofá, acendeu um cigarro e foi até a janela. Precisava pensar. Precisava decidir. Olhou novamente para a esquina, na vã esperança que ela surgisse novamente por ali. Esperando por ele. Enquanto olhava, um táxi passou em frente ao seu prédio e virou naquela mesma esquina, naquela mesma direção.
O taxista parou na esquina e virou. Falaram que ele precisava chegar rápido. E ele chegou.
Caminhando pela rua, ela chorava. Estava ali, mas seus embriagados pensamentos estavam longe. Estavam nele. Então, ouviu uma buzina e uma freada brusca.
O taxista acelerava quando viu um vulto à sua frente, no meio da rua. Por instinto, buzinou e pisou bruscamente no freio. Se a rua estivesse seca o final seria diferente. Mas não estava. Não foi.
Na janela do apartamento, ele ouviu uma buzina, uma freada e um grito. Se assustou.
Na rua molhada, ali estava ela deitada no chão. O taxista saiu do carro, olhou para ela e chutou o pára-choque do táxi gritando vários palavrões. Se aproximou dela, e viu que ela chorava. Ou então, era a chuva. Voltou para dentro do táxi e pegou o rádio para chamar socorro. Enquanto ele falava, outro táxi chegou. Era o táxi que ela havia chamado. O outro taxista desceu e conversaram. Um iria buscar um empresário que estava atrasado para pegar um vôo. O outro, iria pegar uma garota que estaria esperando naquela rua.
Da janela do apartamento, ele ouviu seu celular tocar. Foi até ele e olhou para a tela. Era ela. Não sabia se deveria atender ou não. Pensou um pouco, deu outro gole no vinho e atendeu. Um homem falou. E a garrafa de vinho caiu no chão, sujando o tapete de vermelho.
Na rua, um dos taxistas colocou o celular dela de volta na bolsa. Conversaram com ela e a ajudaram a se levantar. Ela estava bem. Com o braço e a perna levemente machucados, claro, mas bem. Da esquina, um homem sem camisa veio correndo. Também estava chorando por causa da chuva. Conversou com os dois taxistas e entendeu o que havia acontecido. Perguntou se ela estava bem e ela respondeu que sim, mostrando apenas o braço e a perna. Um dos taxistas perguntou se ela precisava ir a um hospital, mas ela disse que não. O outro taxista pediu desculpas e licença, entrou no carro e foi em busca do seu ainda mais atrasado cliente. Ela disse que queria apenas ir para casa. O taxista que viera buscá-la então perguntou se ela precisava de alguma carona, por cortesia. Ela disse que não, que a casa dela era logo ali, num apartamento virando aquela esquina. Então o taxista deixou seu número de celular, para o caso de alguma emergência, e foi embora. Então, ela olhou para aquele homem sem camisa e o abraçou, totalmente molhada por causa das lágrimas e da chuva. Ele a abraçou e foram para o apartamento que agora, era novamente deles.
Ao virar uma esquina, ela parou debaixo de uma marquise. Abriu a bolsa, pegou seu celular e ficou olhando-o, na esperança que ele ligasse para pedir desculpas. Mas na tela, apenas o horário dizia a ela que aquela madrugada nunca mais seria esquecida. Ela discou o número dele, mas desligou em seguida. Então, chamou um táxi, pediu que ele viesse rápido e continuou caminhando.
Em algum lugar qualquer, um taxista recebeu uma chamada no rádio. Anotou o endereço no bloquinho grudado no para-brisa e embrulhou seu sanduíche. Ligou o carro sem saber que naquela madrugada, iria mudar a vida de dois alguéns.
No apartamento, ele tirou a camisa, e abriu outra garrafa de vinho. Mas esse era nacional, barato, como ele mesmo se sentia. Afinal, iria beber sozinho. No gargalo mesmo, deu um longo gole. Suspirou e recostou a cabeça no sofá. Sabia que por aquela porta daquele apartamento, uma história havia acabado de terminar. Culpa do orgulho, do ciúme. Culpa dele. Enquanto discutiam, ela chorou. Ele gritou. Ela implorou. Ele terminou. Ela se foi. E ele ficou. Arrependido.
Caminhando no meio da rua, ela ainda chorava. Levava a manga do casaco ao rosto, para secar as lágrimas e as gotas da fina chuva que caía. Queria entrar novamente por aquela porta daquele apartamento, mas não deveria. O fim tinha chegado. E só restava a ela continuar caminhando.
Ele se levantou do sofá, acendeu um cigarro e foi até a janela. Precisava pensar. Precisava decidir. Olhou novamente para a esquina, na vã esperança que ela surgisse novamente por ali. Esperando por ele. Enquanto olhava, um táxi passou em frente ao seu prédio e virou naquela mesma esquina, naquela mesma direção.
O taxista parou na esquina e virou. Falaram que ele precisava chegar rápido. E ele chegou.
Caminhando pela rua, ela chorava. Estava ali, mas seus embriagados pensamentos estavam longe. Estavam nele. Então, ouviu uma buzina e uma freada brusca.
O taxista acelerava quando viu um vulto à sua frente, no meio da rua. Por instinto, buzinou e pisou bruscamente no freio. Se a rua estivesse seca o final seria diferente. Mas não estava. Não foi.
Na janela do apartamento, ele ouviu uma buzina, uma freada e um grito. Se assustou.
Na rua molhada, ali estava ela deitada no chão. O taxista saiu do carro, olhou para ela e chutou o pára-choque do táxi gritando vários palavrões. Se aproximou dela, e viu que ela chorava. Ou então, era a chuva. Voltou para dentro do táxi e pegou o rádio para chamar socorro. Enquanto ele falava, outro táxi chegou. Era o táxi que ela havia chamado. O outro taxista desceu e conversaram. Um iria buscar um empresário que estava atrasado para pegar um vôo. O outro, iria pegar uma garota que estaria esperando naquela rua.
Da janela do apartamento, ele ouviu seu celular tocar. Foi até ele e olhou para a tela. Era ela. Não sabia se deveria atender ou não. Pensou um pouco, deu outro gole no vinho e atendeu. Um homem falou. E a garrafa de vinho caiu no chão, sujando o tapete de vermelho.
Na rua, um dos taxistas colocou o celular dela de volta na bolsa. Conversaram com ela e a ajudaram a se levantar. Ela estava bem. Com o braço e a perna levemente machucados, claro, mas bem. Da esquina, um homem sem camisa veio correndo. Também estava chorando por causa da chuva. Conversou com os dois taxistas e entendeu o que havia acontecido. Perguntou se ela estava bem e ela respondeu que sim, mostrando apenas o braço e a perna. Um dos taxistas perguntou se ela precisava ir a um hospital, mas ela disse que não. O outro taxista pediu desculpas e licença, entrou no carro e foi em busca do seu ainda mais atrasado cliente. Ela disse que queria apenas ir para casa. O taxista que viera buscá-la então perguntou se ela precisava de alguma carona, por cortesia. Ela disse que não, que a casa dela era logo ali, num apartamento virando aquela esquina. Então o taxista deixou seu número de celular, para o caso de alguma emergência, e foi embora. Então, ela olhou para aquele homem sem camisa e o abraçou, totalmente molhada por causa das lágrimas e da chuva. Ele a abraçou e foram para o apartamento que agora, era novamente deles.
sábado, 30 de janeiro de 2010
Existir ou viver
Ali estava ele, recostado naquela parede suja daquele sujo boteco, bebendo um copo de whisky e olhando para ela. Para ela e para aquele homem que a abraçava. Que abraçava e, também, beijava-a. E, enquanto olhava, ele se perguntava o por quê. Por que a olhava daquele jeito, cheio de vontades? Por que a queria assim, acima de todas as outras pessoas, mesmo sabendo que ela está com outro? Ele se perguntava isso, mas já sabia da resposta. Ele a queria, porque sabia que ela não fora feita para aquele homem que a beijava. Ele sabia e sabe que ela foi feita pra ele. O detalhe é que ela ainda não sabia disso. Ainda.
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Dias antes, ali estava ele, ao telefone, conversando com ela. Assuntos idiotamente cotidianos, mas ao mesmo tempo, interessantes. Futilidades que iam do “como foi seu dia?” até “você viu aquele vídeo idiota daquele idiota que pula de uma pedra e cai de barriga na água?”. Ele duvidava que ela se divertisse e conversasse daquele jeito com outras pessoas. Dentre essas conversas, ele sentia medo. Medo pois sequer imaginava que alguma outra pessoa no mundo tivesse uma coleção de escovas de dente em casa, apenas porque esquecia de levar a sua para uma viagem, obrigando a compra de uma outra que, depois, acabaria guardada em uma gaveta qualquer. Ele sentia medo e tentava imaginar o que mais tinham em comum. E tinham muitas outras coisas, coisas essas que acabariam por tirar o medo dele e transformariam esse medo em, paixão. Paixão e decepção.
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Naquela suja parede daquele sujo bar, ele observava os dois. Ela estava bebendo cerveja, o homem, água tônica. Ela está fumando um cigarro e ele, mascando um chiclete de menta. Ela jogava sinuca de um jeito que ele jamais jogaria, enquanto o homem jogava sinuca de um jeito que ela apenas sorria. E ele ali, recostado na parede. Observando. Imaginando.
Então ele se lembrou do beijo dela. Daqueles beijos, que duraram uma madrugada apenas. Daqueles lábios, que agora tocavam outros lábios. Daquele perfume, que agora impregnava outra camisa, que não a dele. Lembranças que não deviam machucar, mas que machucavam. Machucavam não por pertencerem agora a outra pessoa. Mas por pertencerem a outra pessoa que não as merecia. Apenas porque essa outra pessoa não fora feita para ela. Então ele pediu outra dose de whisky.
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- Por que você tá com ele?
- Porque eu gosto dele.
- E você está feliz?
- Não sei.
- Você deveria responder que sim. Se não sabe, é porque sinceramente, você não está.
- É, sei lá.
- Você não sabe, mas eu sei que não está.
- Mas agora estou com ele.
Esse golpe ele sentiu com força. Não por gostar, e muito, dela. Mas porque, acima de tudo, ele quer vê-la feliz. E ela não está, assim, feliz. Ela está apenas vivendo no comodismo. E isso não é viver, é existir.
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Ali, bebendo aquele whisky, ele continua observando os dois. E fica apenas a imaginar como seria se tudo fosse diferente. Se ele soubesse jogar sinuca como ela joga. Se ele estivesse abraçando-a, ao invés de vê-la ser abraçada. Como seria, se os dois estivessem bebendo um vinho qualquer em uma praça qualquer. Como seria estar deitado com ela na cama, matando ambas as vontades. Como seria beber um café ao lado dela, dentre as fumaças de ambos os cigarros. Ou como seria viajar para a praia num sábado ao anoitecer, sentar na areia, conversar e se divertir para, depois, simplesmente vir embora. Ele imagina, enquanto ela existe. Mas não vive. E ele fica ali, torcendo para ela desistir dessa ideia tola de apenas existir, para vir viver com ele uma louca história completamente sem planos, sem ideias e sem mentiras. Para viver momentos cheios de loucura, de risadas e de conversas em comum. E enquanto ela existe e finge viver, ele está por aí, apenas sonhando dentre um copo e outro de whisky.
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Dias antes, ali estava ele, ao telefone, conversando com ela. Assuntos idiotamente cotidianos, mas ao mesmo tempo, interessantes. Futilidades que iam do “como foi seu dia?” até “você viu aquele vídeo idiota daquele idiota que pula de uma pedra e cai de barriga na água?”. Ele duvidava que ela se divertisse e conversasse daquele jeito com outras pessoas. Dentre essas conversas, ele sentia medo. Medo pois sequer imaginava que alguma outra pessoa no mundo tivesse uma coleção de escovas de dente em casa, apenas porque esquecia de levar a sua para uma viagem, obrigando a compra de uma outra que, depois, acabaria guardada em uma gaveta qualquer. Ele sentia medo e tentava imaginar o que mais tinham em comum. E tinham muitas outras coisas, coisas essas que acabariam por tirar o medo dele e transformariam esse medo em, paixão. Paixão e decepção.
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Naquela suja parede daquele sujo bar, ele observava os dois. Ela estava bebendo cerveja, o homem, água tônica. Ela está fumando um cigarro e ele, mascando um chiclete de menta. Ela jogava sinuca de um jeito que ele jamais jogaria, enquanto o homem jogava sinuca de um jeito que ela apenas sorria. E ele ali, recostado na parede. Observando. Imaginando.
Então ele se lembrou do beijo dela. Daqueles beijos, que duraram uma madrugada apenas. Daqueles lábios, que agora tocavam outros lábios. Daquele perfume, que agora impregnava outra camisa, que não a dele. Lembranças que não deviam machucar, mas que machucavam. Machucavam não por pertencerem agora a outra pessoa. Mas por pertencerem a outra pessoa que não as merecia. Apenas porque essa outra pessoa não fora feita para ela. Então ele pediu outra dose de whisky.
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- Por que você tá com ele?
- Porque eu gosto dele.
- E você está feliz?
- Não sei.
- Você deveria responder que sim. Se não sabe, é porque sinceramente, você não está.
- É, sei lá.
- Você não sabe, mas eu sei que não está.
- Mas agora estou com ele.
Esse golpe ele sentiu com força. Não por gostar, e muito, dela. Mas porque, acima de tudo, ele quer vê-la feliz. E ela não está, assim, feliz. Ela está apenas vivendo no comodismo. E isso não é viver, é existir.
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Ali, bebendo aquele whisky, ele continua observando os dois. E fica apenas a imaginar como seria se tudo fosse diferente. Se ele soubesse jogar sinuca como ela joga. Se ele estivesse abraçando-a, ao invés de vê-la ser abraçada. Como seria, se os dois estivessem bebendo um vinho qualquer em uma praça qualquer. Como seria estar deitado com ela na cama, matando ambas as vontades. Como seria beber um café ao lado dela, dentre as fumaças de ambos os cigarros. Ou como seria viajar para a praia num sábado ao anoitecer, sentar na areia, conversar e se divertir para, depois, simplesmente vir embora. Ele imagina, enquanto ela existe. Mas não vive. E ele fica ali, torcendo para ela desistir dessa ideia tola de apenas existir, para vir viver com ele uma louca história completamente sem planos, sem ideias e sem mentiras. Para viver momentos cheios de loucura, de risadas e de conversas em comum. E enquanto ela existe e finge viver, ele está por aí, apenas sonhando dentre um copo e outro de whisky.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
O seu problema
Esse texto teve um tema colaborativo entre eu e a @__nana. Ela bolou a frase inicial e nós combinamos que cada um escreveria um conto a partir dela. Apenas isso. E o que ela escreveu? Você pode conferir aqui ó: Nana e o mar. Enjoy them.
- Sabe, talvez o problema seja mesmo você.
- Sabe, talvez o problema seja mesmo você.
Ele pensou, enquanto se olhava no espelho do banheiro. Talvez ele fosse o problema. E não ela. Lá fora, mais uma noite fria na sua vida o aguardava. Foi até o quarto, pegou seu casaco e saiu de casa. Caminhou sem rumo, apesar de saber onde queria chegar. E onde queria chegar não era um lugar. Lembrou-se do curto conto que viveu com ela. Conto que ele adoraria que virasse um longo romance. Mas não virou. Ela não quis. E se ela não quis, motivos haveriam de existir. Motivos que seriam para sempre um mistério envolto nas várias hipóteses que ele imaginou.
Caminhou até passar em frente a um bar. Olhou para dentro e, sem saber direito porque, entrou. Pediu uma dose de whisky, acendeu um cigarro e sentou. Ficou ali, apenas observando as outras pessoas. Em outra mesa, havia um outro homem sentado, sozinho. Talvez ele também estivesse pensando em como chegar a algum lugar. Ou, talvez, estivesse pensando em como se perdeu.
Observou um casal e sentiu inveja. Levantou o copo e brindou sozinho aos caminhos daqueles dois que se encontraram. Chegou à conclusão de que ele era sim o problema. E que o seu problema era não saber como chegar àquele lugar. Começar a jornada, ele sabe. Mas sempre que se encontra em um cruzamento, não sabe para onde ir. Então, arrisca um caminho qualquer e, quando vê que errou, não tem mais como voltar e escolher outro.
O whisky terminou. Ele deixou uma nota sobre a mesa e saiu do bar. Enquanto andava, pensava. Qual será a solução para ele? Para o problema? Dentre todos os infinitos cruzamentos das ruas da vida, há uns dois ou três que o levarão até ela. Como descobrir qual escolher? E qual desses irá convencê-la a caminhar junto com ele? É essa dúvida que o faz continuar essa caminhada sem rumo. Por enquanto, sem fim. E, por enquanto, sem ela.
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